
O AMOR EM NOSSAS VIDAS
Expectant Mistress
Sara Wood



 
Copyright  1998 by Sara Wood
Originalmente publicado em 1998 pela Harlequin Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra

Todos os personagens desta obra so fictcios.
Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.

Ttulo original: Expectant Mistress

Traduo: Nancy de Pieri Mielli
Editor Janice Florido
Chefe de Arte: Ana Suely Dobn
Paginador: Nair Fernandes da Silva

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10 andar CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil

Copyright para a lngua portuguesa: 1999
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Fotocomposio: Editora Nova Cultural Ltda.
Impresso e acabamento: Grfico Crculo



Uma brincadeira do destino?

Trish ainda sentia arrepios quando pensava nos beijos que trocara com Adam quatro anos antes. Mas quando se lembrava das mulheres sofisticadas por quem ele se sentia atrado, perdia a esperana de que isso tornasse a acontecer.
At que Adam bateu em sua porta, insistindo que era ela quem ele queria. E levou-a para a cama, sem lhe dizer se permaneceria a seu lado ou se a relao seria apenas temporria.
No foi preciso perguntar. Antes que Trish tivesse chance de contar a Adam que estava grvida, um fax da mulher que ele dissera ser sua ex-noiva lhe caiu nas mos...



Digitalizao e reviso: Ne?ma?
 
CAPTULO I

Adam estava atrasado para sua festa de noivado. Mas, pior do que o atraso em si era a razo dele. Outra mulher.
No conseguia afastar os olhos do porta-retrato. Mesmo que sua ateno estivesse voltada para o fax e para o telefone que no parava de tocar, a imagem de Trish no saa de seus pensamentos.
Jamais esqueceria o ltimo momento que passaram juntos.
Devolveu o porta-retrato  mesa e olhou mais uma vez para a mulher que se encontrava entre sua falecida esposa e sua enteada, Petra. Em seguida, colocou as abotoaduras.
Talvez algum estivesse tentando cham-lo ao telefone. No tinha certeza. De repente, estava de volta ao passado.
Viu-a olhando para ele. Seu lindo rosto refletia compaixo. Uma emoo intensa o inundou e ele sentiu que precisava conhec-la melhor, toc-la, ficar perto...
No fazia idia do que estava acontecendo. Sentiu a pele macia daquele rosto contra o dele e o perfume de seus cabelos. Quando deu por si, estava mergulhando o rosto entre eles e beijando o pescoo longo e acetinado. No conseguiu mais se controlar.
O corpo jovem e sexy se insinuava contra o dele, os seios firmes e generosos pressionavam seu peito.
O bom senso subitamente prevaleceu.

Atendeu duas ligaes seguidas, recebeu os faxes e fez algumas anotaes nas margens para sua secretria. Quem o visse naquele instante e nos seguintes, saindo do apartamento, no acreditaria que todo aquele dinamismo ocultava uma imensa saudade e desejo por uma mulher.

Em uma sute especial de um hotel de Londres, Trish se preparava para ir  festa. O convite estava em sua bolsa, longe dos olhos.
Adam e Louise.
Quatro vestidos encontravam-se estendidos sobre a cama. As mos midas completavam o quadro. Estava com os nervos em frangalhos.
Como deveria cumprimentar o homem que a beijara clamando posse e deixando-a febril de paixo, quatro anos antes?
As pernas se recusaram a continuar sustentando-a. Precisou sentar-se e fechar os olhos, mas no adiantou. Continuava vendo-o apesar de os olhos estarem fechados. Continuava sentindo o hlito quente em seu pescoo, e os lbios vidos em sua pele.
Deitou-se e deixou que as lembranas aflorassem. No houvera preliminares. Ele no a cortejara. Nunca havia segurado sua mo nem lhe dado um beijo de amizade nem lhe feito uma carcia. No haviam marcado encontros. No entanto, o primeiro e nico contato fora inevitvel e inesquecvel.
E ela sentira-se a mulher mais poderosa e feliz do mundo por despertar uma paixo to avassaladora. Mas quando ele murmurou seu nome, ela soube, instintivamente, que algo estava errado. Abraou-o com mais fora, e ele afastou-a. Antes que tivesse chance de lhe perguntar o que havia acontecido, ele se afastou sem olhar para trs.
 Voc est muito bonita.
Trish voltou ao presente. Como se tivesse sido apanhada cometendo uma falta, sentou-se, assustada.
 Devia ter batido, Petra!  reclamou.
 Eu bati  defendeu-se a amiga , mas voc estava a quilmetros de distncia. Por que no trancou a porta?
 Esqueci  Trish admitiu.  No estou acostumada. Ningum tranca as portas de suas casas na ilha. J que est aqui, ajude-me, Petra. Como devo me vestir? Este vestido est bom? Ou seria melhor eu troc-lo por um jeans? Ou, ento, atirar-me no poo do elevador?
Petra abraou a amiga pela cintura.
 No faa drama. Est bonita com esse vestido.
Bonita. O que deveria entender por aquele tipo de elogio? O mesmo que o espelho lhe revelara? Que parecia uma senhora de meia-idade sem nenhuma sofisticao?
 Bonita  pouco! Quero ficar sensacional!
 Por qu?  Petra caoou.  No vive dizendo que aparncia no importa?
Trish engoliu em seco. Petra conheceria seu segredo? Mas, se conhecesse, a teria convidado para a festa de noivado de seu padrasto?
 Aposto que todas as mulheres estaro usando vestidos deslumbrantes.
 As convidadas, eu no sei  disse Petra , mas a noiva de Adam, eu garanto.
Trish cogitou por que a informao a deixara boquiaberta. Deveria ter imaginado que Adam no se casaria com uma mulher qualquer.
Tentou disfarar.
 Olhe para mim! De que adianta ter uma amiga, se quando mais preciso de apoio, ela no sabe mentir?
 Ok.  Petra imitou uma f diante de um dolo.  Oh, mal posso acreditar no que vejo! Que maravilha! Onde voc comprou esse vestido? Adam ficar fascinado! Desfar o noivado antes mesmo de festej-lo!
Trish franziu o cenho. Subitamente, a brincadeira deixara de ter graa.
Estava usando um vestido do qual no gostava, odiara o ltimo corte de cabelos que sua av lhe fizera, e os sapatos que Petra lhe emprestara estavam apertados.
No podia se apresentar assim a Adam pela primeira vez desde que...
Estava tudo errado! O melhor que tinha a fazer era atirar-se na cama e esquecer sobre aquele noivado.
 Quer chamar a ateno dele?  Petra provocou-a.  Podemos ir at seu apartamento e pegar emprestada uma de suas cuecas cor-de-rosa de cetim. Sobre os seios, amarraramos dois lenos da mesma cor.
 O que deu em voc, Petra?  Trish indagou.  Como pode falar assim de seu padrasto?
Petra olhou para Trish pelo reflexo do espelho.
 Bem, admito que o considero praticamente meu pai. Afinal, ele cuida de mim desde que eu tinha trs anos. Mas, parece que ele rejuvenesceu  medida que eu cresci. Encaro-o como algum de minha idade. Ou da sua.  Petra encarou a amiga.  Adam  um homem bonito demais, no? Alto, bronzeado e cheio de energia!
 Fala como se estivesse tentando vend-lo no mercado de escravos  Trish resmungou.
 Ele valeria um dinheiro, com certeza  Petra afirmou.  Mente s em corpo so. Todas minhas amigas se derretem por ele.
Trish fez uma careta. Ela tambm era amiga de Petra. E ningum deveria ser to fascinada por ele. Adam jamais envelheceria. Era amante dos esportes. Adorava correr com seu barco, desafiava as pistas de esqui. Aplicava seu dinheiro em investimentos arriscados.
Lembrou-se de sua pele morena e dos cabelos to pretos que chegavam a parecer azulados. Os ombros eram largos e fortes. Ele esbanjava charme e poder. Com um simples olhar, conseguia tudo o que queria.
Os olhos azuis de Trish se encheram de lgrimas ao recordar a suavidade de seu rosto quando o tocou e os lbios que pareciam estar sempre prontos a sorrisos e a beijos.
Respirou fundo.
 O velho e querido Adam!  Trish exclamou.   bom para ele ter encontrado algum em sua idade.
Petra encarou-a, espantada.
 Em sua idade? Ficou maluca? Adam se casou com minha me aos dezoito anos. Ela era dez anos mais velha do que ele. Meu padrasto tem apenas quinze anos mais do que eu. Dezesseis mais do que voc.
 Ou seja, ele  velho!  Trish insistiu. Trinta e oito anos para seus vinte e dois. O apogeu de um homem.
Para manter-se ocupada, Trish esvaziou a bolsa sem razo alguma. Adam era velho demais e jovem demais. Afinal, se tivesse a idade da me de Petra, ou alguns anos mais pelo menos, agora ela no estaria  beira de uma estpida crise de nervos.
 O que est fazendo?  Petra indagou.
 Estou limpando minha bolsa.
 Ah!
Foi o ah mais significativo que Trish j ouvira. Era bvio que Petra estava desconfiada de que havia algo errado com ela.
 Petra, responda-me com franqueza. Acha que me tornei uma caipira?
A expresso da amiga era de carinho. Petra estava linda. Sua maquilagem estava perfeita. Natural. Tentara usar os mesmos cosmticos emprestados por ela, mas assim que aplicou a base, precisou lavar o rosto. No se sentiu  vontade. Quanto ao lpis e ao rmel, nem sequer tentou us-los.
Suas sobrancelhas e clios eram escuros por natureza. E o mesmo acontecia com os lbios e com as faces. Como eram rosados, no havia necessidade de colori-los com batom e com pinceladas de blush. Ao mesmo tempo, quando se olhava ao espelho, sentia que lhe faltava glamour. No sabia ser elegante nem sofisticada. No era de admirar que as pessoas a encarassem quando percorria os arredores do luxuoso hotel. Deveriam imaginar que cara de algum trator a caminho do campo!
 Estou horrvel, no?  Trish insistiu.
 Pare com isso! Voc est tima. O bronzeado de sua pele  de fazer inveja e ningum tem pernas como as suas.  Petra deu uma piscada.  Aposto que se destacar na festa com seu frescor mais do que todas as outras mulheres que gastaram fortunas para se produzirem.
Trish no gostou do termo. Preferia que Petra tivesse usado qualquer outra palavra exceto frescor. Tinha certeza de que ficaria em total desvantagem perante as outras mulheres. Enquanto as outras estariam exibindo mos macias e unhas longas e esmaltadas, ela estaria escondendo as suas, speras de trabalhar.
 No precisa mentir, Petra. Conheo meu lugar  Trish desabafou.  De que adianta eu tentar me convencer do contrrio? Serei o elemento de comparao. Ao me ver, a noiva de Adam me cumprimentar com um sorriso de indulgncia, e far comentrios sobre o quanto sou simplria, talvez engraadinha.
Petra olhou para Trish de um modo estranho.
 No fique to convencida disso. Louise j ouviu falar sobre sua pessoa o suficiente para estar, neste momento, to ou mais preocupada do que voc com sua aparncia. Ento, vamos?
Incapaz de falar, aps a observao de Petra, Trish deixou-se conduzir para o elevador. Teria Adam se lembrado dela a ponto de fazer comentrios a seu respeito com a noiva?
De qualquer modo, era tarde demais. Ele havia feito sua escolha. Sua companheira seria uma mulher bonita, talentosa e fina. Algum que saberia se portar  mesa e conversar em qualquer crculo social. Algum de sua idade, com as mesmas preferncias e capacidade para desvendar os programas de um computador. Algum que soubesse organizar um jantar de negcios e ao mesmo tempo se apresentar sempre linda e perfumada.
O que estava fazendo ali? Por que cedera ao bombardeio de Petra com suas inmeras cartas e telefonemas, insistindo em convid-la para passar alguns dias com ela em Londres e participar da festa? Recusara-se, no incio, alegando que era uma festa em famlia. Tivesse sido outro o argumento, talvez houvesse funcionado. Petra lembrou-a de que fazia parte da famlia depois de ter morado com eles durante dois anos.
Em resumo, sem ter nenhuma desculpa concreta para no aceitar o convite, Trish estava a poucos minutos de desejar a Adam e sua noiva toda a felicidade do mundo.
Uma sombra desceu sobre o rosto de Trish ao ensaiar os cumprimentos.
Ol, Adam! Que festa adorvel! Parabns. Como vai, Louise? Seu vestido  um encanto!
No. Impossvel. Adam adivinharia seu fingimento de imediato. Bastaria olhar no fundo de seus olhos para ver que ela...
Ordenou-se a parar de tremer. No havia tempo. Precisava decidir o que dizer a Adam.
Petra tagarelava sem parar enquanto percorriam os corredores acarpetados do luxuoso hotel. A decorao era magnfica com mveis antigos de mogno, quadros a leo e objetos artsticos.
A tentativa de participar da conversa foi abandonada quando chegaram  sala onde seria oferecido o jantar. As mesas estavam impecveis com arranjos de flores, cristais e pratarias.
Foi difcil controlar a vontade de fugir. Estava assustada, as pernas tremiam. Tinha medo de trair seu nervosismo e cometer uma gafe diante dos convidados e, principalmente, de Adam.
Alm dos esforos que seria obrigada a fazer para Adam no notar que nunca o esquecera, ainda precisaria suportar o constrangimento provocado pelo prprio ambiente.
Em suma, estava se sentindo um peixe fora d'gua em Londres. O barulho e a frieza das pessoas era algo terrvel. A vida na cidade podia ser descrita com uma s palavra: velocidade.
As pessoas falavam rpido, andavam rpido e gesticulavam rpido. A impresso que dava era de que o dia no dispunha de horas o suficiente para realizarem suas atividades.
Aps dois dias de sua chegada, Trish j estava se sentindo tensa e estressada.
No entanto, aquele era o ambiente preferido de Adam. Fazia quatro anos que ele e sua empresa de programas para computadores haviam se mudado de Truro para Londres.
Trish mordeu o lbio. Ela e Adam pertenciam a mundos diferentes. Enquanto ele mergulhava com prazer naquele ritmo alucinante da cidade, ela estava ansiosa para retornar  calma e  serenidade do campo.
Apesar de tudo, seus passos continuavam conduzindo-a  festa. Talvez fosse melhor para ela. Se visse Adam olhando com adorao para outra mulher, acabaria conseguindo arranc-lo de seus pensamentos e aceitando o compromisso proposto por seu namorado.
O tempo havia passado. Quando visse as mudanas operadas em Adam, talvez deixasse de idealiz-lo. Aps todos aqueles anos, ele no deveria estar to sexy. Assim como ela deixara de ser aquela jovem impressionvel de dezoito anos.
S muito mais tarde, j de volta  ilha, cheia de culpa pelo que acontecera, conseguira concluir que a atitude de Adam no decorrera de seus sentimentos por ela. Teria feito o mesmo com qualquer mulher que tivesse se aproximado dele naquele instante. Fazia dois meses que perdera a esposa. Estava triste e carente.
A morte de Christine no fora inesperada. A doena a consumira durante cinco longos anos. Assim mesmo, o sofrimento de Adam fora to grande que no encontrara foras nem sequer para comparecer ao funeral.
Trish suspirou. A culpa fora inteiramente dela. Quando Adam fitou-a, estendeu as mos e murmurou seu nome, em vez de consol-lo, ela reagiu como se tivesse ouvido uma declarao de amor.
Jamais em sua vida, portou-se to mal nem se sentiu, depois, to culpada e envergonhada. Ainda no havia conseguido se perdoar pelo que fizera.
Faltava pouco para ver Adam. Mais alguns instantes e ficariam frente a frente.
 Sorria!  pediu Petra.  Com essa cara, espantar todos os convidados.
Ela obedeceu. No seria um cumprimento de condolncias. Adam no estava mais triste. Ele estava feliz. No se sentia mais s. Havia uma nova mulher a seu lado.
Petra conduziu-a ao salo de recepes. As vozes, o perfume do ambiente, as fitas e rosas que pareciam brotar de todos os cantos, tudo contribua para que suas pernas pesassem e a cabea flutuasse.
 No me deixe sozinha!  Trish implorou a Petra, mas a amiga no teve como atender seu pedido, pois foi arrebatada por uma pequena multido.
Incapaz de se mover, Trish limitou-se a percorrer a sala com os olhos  procura de Adam. Mas no o viu em parte alguma.
 Oi! Que bronzeado! Esteve em alguma estao de esqui?
Trish pestanejou diante da desconhecida alta e ruiva que surgiu a sua frente e que a encarava como se tivesse vindo de outro planeta.
 No. Moro em Scilly...
 Na Itlia? Oh, eu adoro a Itlia. De que parte...
 Ela se referiu s ilhas Scilly, no  Siclia  corrigiu uma voz baixa e grave que Trish reconheceria em qualquer lugar.  Elas ficam no Atlntico, trinta e dois quilmetros a sudoeste de Land's End na Cornualha. Cinco apenas so habitadas. As outras cento e quarenta, se no estou enganado, pertencem  natureza.
A mo de Adam pousou sobre o ombro de Trish enquanto ele falava. Trish no ouviu mais nenhuma palavra aps esse momento. O calor daquela mo se difundiu por seu corpo, aquecendo-o.
 Ento essa  Trish!  a mulher afirmou mais do que perguntou.  E eu imaginei, todo o tempo, que fosse italiana.
Louise, pois a ruiva s poderia ser a noiva de Adam, pelo modo como se pendurou no brao dele, passou a olhar para Trish como se fosse um ser inferior. Trish sentiu uma onda de irritao inund-la.
Dominou o cime com esforo e obrigou-se a sorrir.
 No sou italiana, mas tenho algum sangue espanhol em minhas veias. Quando fico excitada, quero dizer, quando algum me perturba, esse sangue me sobe  cabea.
 Isso no acontece em nenhum outro tipo de situao?  Adam caoou.
Ela ainda no havia encontrado coragem para olhar para ele. Seu corao estava batendo to forte que o ar chegava a faltar. Percebeu que ele estava tentando ser divertido. Precisava seguir essa linha de comportamento e provar que no estava abalada com o encontro.
 Sim, acontece. Principalmente quando estou colhendo cenouras.
Adam deu uma risada. Adorou ouvi-lo. Ao mesmo tempo, ficou perplexa com a reao de Louise. Ela ficou to pasma que as sobrancelhas desapareceram em seu penteado.
 Voc no costuma rir desse jeito  ela disse em tom de censura.
 Acho que havia me esquecido. Minha vida anda muito atribulada  Adam respondeu.
Qualquer um adivinharia que a relao era tensa entre aqueles dois, Trish pensou. Animada com a descoberta, apressou-se a continuar:
 Meu av contou que h contrabandistas e piratas espanhis entre nossos ancestrais. As mulheres da famlia, afinal, no podiam perder nenhuma oportunidade. No quando moravam em uma ilha do tamanho de um prato.
Os olhos de Louise estreitaram-se. Trish tentou se convencer de que estava ganhando aquela parada, mas conteve-se a tempo. Acabara de sugerir que estava  caa de um homem que a tirasse de sua toca! Quando aprenderia que no tinha talento para competir com uma mulher fina e bem-educada?
 Ol, Trish  Adam saudou-a por fim.   bom rev-la.
Ela virou-se para ele, mas no ergueu os olhos. Ainda no encontrara foras para olhar para aquele rosto lindo e msculo. Tudo o que estava vendo era o branco da camisa.
 Faz muito tempo. Os anos...
 Esquea os anos  Adam protestou e tomou-a inesperadamente nos braos e beijou-a em ambas as faces.
Trish fechou os olhos e aspirou, deliciada, o perfume que se desprendia daquele corpo e daqueles cabelos escuros e macios. Os lbios de Adam em sua pele estavam clidos. E lhe pareceu que ficaram pousados mais do que o tempo socialmente permitido. Ou seria a fora de seu desejo que a fazia imaginar o que no era?
Seu estmago contraiu dolorosamente quando abriu os olhos e viu-o sorrindo, mas para Louise. O que esperava? Que Adam no fosse mais solt-la? Que desistisse da noiva e dissesse que era Trish, a mulher de seus sonhos, e no a outra?
Sim, inconscientemente, era o que esperava. Ou a indiferena de Adam no a magoaria tanto. No viera a Londres, como tentara enganar a si mesma, para afast-lo de uma vez por todas de sua mente. Ainda o queria. Doa saber que no tinha nenhuma chance em comparao  deusa ruiva e talentosa que ele escolhera e aprovara.
 Bem, estou um pouco atrasado com as apresentaes, mas creio que vocs j se reconheceram. Louise, esta  Trish  disse Adam.  Trish, esta  Louise, minha noiva.
 Seja bem-vinda a nossa festa de noivado.
O beijo frio e a entonao da voz dizia o contrrio, Trish pensou. Isso a fez manter o sorriso, por mais que desejasse apertar os lbios e os punhos. No podia permitir-se uma humilhao. Apesar de no saber a diferena entre as ilhas Scilly e a ilha da Siclia, Louise era ainda mais bonita do que esperava.
  muito estranho...
No houve tempo para Louise prosseguir. Quatro loiras esfuziantes cercaram Adam e o cobriram de beijos.
Surpreendeu-a que Louise no demonstrasse cime. O que no estava acontecendo com ela! Sua vontade era empurrar aquelas oferecidas para longe!
Para no ficar meramente olhando a cena, forou-se a continuar a conversa com Louise.
 Estava dizendo...
 Que acho estranho que esteja bronzeada. Afinal, isto  a Inglaterra e a primavera mal comeou. Fez bronzeamento artificial?
 No, no fiz. Esta cor  resultado de sol, vento e chuva. Adam costumava dizer que os habitantes de Scilly so filhos da natureza. Eu no nego. Vivo mais ao ar livre do que dentro de casa.
 Mas voc no  dona de uma pousada?  Louise questionou.
Adam obviamente no se estendera em explicaes.
 Sim, mas no h meios de transporte em minha ilha. As estradas so de terra. No h asfalto. Ns usamos apenas barcos. Para voc ter uma idia, Bryher tem apenas um quilmetro e meio de largura por dois e meio de comprimento.
 Como pode viver em um lugar to pequeno? Algumas pessoas possuem jardins maiores do isso!  Louise fez um gesto de desdm com as mos de forma a exibir o anel com seu imenso diamante.  Que horror! Como chega aos restaurantes, aos teatros e s lojas? Coberta de lama?
 No h restaurantes a no ser o do hotel. Contamos com dois cafs, entretanto. Quanto a teatros  Trish fez uma pausa e sorriu  ou qualquer outro tipo de entretenimento que no seja admirar a vista ou os navios que passam, eles simplesmente no existem. A menos que possamos considerar como entretenimento as reunies e as cantorias promovidas pelos turistas e pelos pssaros. No h lojas tampouco. O nico prdio comercial pertence ao Correio.
 No h lojas?  Louise indagou, completamente aturdida.
Pelo canto dos olhos, Trish percebeu que Adam estava prestando ateno  cena e que parecia divertido. Por um instante, foi como nos velhos tempos. Era comum, no passado, rirem juntos.
No futuro de Adam, contudo, no havia lugar para ela. Precisava se acostumar com a idia de Adam ter uma esposa e aprender a se comportar como uma simples conhecida. Imediatamente.
 Bryher no tem lugar para o progresso, Louise. No contamos nem sequer com um mdico ou com uma escola. Precisamos plantar para comer ou buscar os alimentos na ilha principal, St. Mary, se quisermos sobreviver. Nos ltimos tempos, conseguimos um pequeno avano. Por via postal, estamos recebendo encomendas de fora.
Louise examinou o vestido de Trish de cima a baixo. Deveria estar cogitando se tambm havia sido adquirido por catlogo.
 Parece o fim do mundo. No serviria para mim nem para Adam. Ns samos todas as noites para jantar. Morreramos de tdio em sua ilha.  Louise olhou para o noivo que limpava com um leno as manchas de batom deixadas pelas loiras.  No , querido? No suportaramos viver em um lugar to primitivo quanto a ilha de Trish.
Trish procurou controlar a revolta que as palavras de Louise provocaram. Por outro lado, como poderia criticar a escolha de Adam? Ele era um homem fino e seu mundo era a tecnologia dos computadores. Ele, tanto quanto a noiva, realmente odiariam levar uma vida simples como a dela.
 A vida na ilha tem seus atrativos para algumas pessoas  Adam respondeu, tentando ser gentil. Sob sua delicadeza, contudo, Trish adivinhou uma nota de irritao. Deveria estar farto daquela conversa.
Louise abraou-o pela cintura em uma demonstrao de posse. Trish percebeu que a outra estava fazendo questo de demarcar seu territrio.
 Eu o conheo to bem, no , querido?  Louise apoiou o rosto no ombro de Adam e ronronou como uma gata. Trish, apesar de seus esforos de controle, fechou os punhos.
 Sobre eu trabalhar das nove s cinco, ser apaixonado por ch, frango assado e filmes romnticos?  Adam brincou.
 No!  Louise retrucou, rindo.  Sei como vocs se conheceram. Trish terminou os estudos aos dezesseis anos e foi morar em sua casa e de sua falecida esposa na Cornualha, onde abrigavam estudantes.
 Sim  Trish concordou, sem saber mais o que dizer.  Vivi naquela casa por dois anos.
Adam empalideceu. Trish, no entanto, corou. Louise pareceu no notar que o ambiente havia se tornado carregado.
 Em que faculdade voc estava estudando? Eu me esqueci.
 Nunca mencionei nenhuma faculdade  Adam retrucou.
 No cheguei a ingressar em uma  Trish admitiu.
 Tenho certeza de que lhe contei que Trish decidiu fazer um curso de hotelaria ao terminar o colgio. Ela veio para Truro com esse objetivo.
Louise sorriu.
 Voc e Petra devem ter a mesma idade.
 Petra  um ano mais velha do que eu  disse Trish.  Ficamos amigas desde que nos conhecemos. Somos muito parecidas e partilhamos do mesmo senso de humor.
 Ento voc tem quase a mesma idade do filho de Adam e de Christine.
Trish olhou ao redor  procura de Petra. Estava precisando de socorro. Aquela mulher havia mostrado as garras e parecia estar se preparando para dar o bote final. O filho de Adam tinha dezenove anos. A ordem era clara. Afaste-se de meu homem. Ele tem quase idade para ser seu pai.
De qualquer modo, era surpreendente que a noiva de Adam fizesse tanta questo de atac-la. Afinal, como uma pobre habitante de uma ilha remota, que no tinha onde comprar sushi ou roupas de Ralph Lauren, poderia ser preo para a elegante Louise?
Talvez devesse aproveitar a oportunidade e mudar o rumo da conversa.
 Stephen est aqui?
At mesmo seu maior inimigo seria bem-vindo naquele instante.
 No. Est cursando Medicina na universidade de Leeds  Adam contou.
 Ele sempre foi inteligente  Trish murmurou.
 Voc trabalhou como enfermeira no hospital onde a esposa de Trish ficou internada, no?
Adam enrijeceu, mas Trish riu do absurdo da pergunta.
 Eu? Oh, no. Ganhava meus trocados trabalhando  noite e nos fins de semana como ajudante de cozinha em um restaurante, e deixando cair panelas de molho e o chapu do chef em um caldeiro de sopa de cogumelos.
 E fazia minha esposa e o pessoal do hospital chorarem de rir quando contava sobre suas peripcias  Adam disse, emocionado.  Voc foi a responsvel por melhorar a qualidade de vida de Christine nos ltimos meses.
Havia profunda gratido no tom de voz de Adam e uma incrvel frieza nos olhos verdes de Louise. Trish constatou que Petra estava certa. A noiva de Adam estava farta de ouvir comentrios sobre Trish Pearce.
  bom termos conosco uma amiga de Petra e que ela seja to divertida  disse Louise, em uma tentativa de reduzir o impacto da notcia.
Trish desejou que o cho se abrisse a seus ps. Olhou ao redor e viu Petra. No mesmo instante, sem se lembrar de pedir licena, deu alguns passos.
Sentiu algum segurar seu brao. Virou-se. Os olhos de Adam pareciam lanar fascas. Ela engoliu em seco. No queria enxergar demais. No podia se entregar a um sonho impossvel.
Disse, ento, a primeira coisa que lhe veio  cabea.
 Quase tropecei. No estou acostumada com carpetes.  Ela se abaixou e tirou os sapatos.
Louise aproximou-se, estarrecida.
 No pode andar por a descala no meio da festa!
 Claro que posso  Trish a contradisse com um sorriso.  Meus ps esto me matando. No tenho vocao para gueixa. Mais alguns minutos, e eu estaria me tornando a Madame Butterfly.
 Por qu?  O tom de voz de Louise tornou-se glido.  No est sendo abandonada por seu amante por ser inadequada  posio dele, est?
Trish ficou chocada demais para responder. Adam procurou levar o caso na brincadeira. As duas mulheres se entreolharam.
 Adam a considera muito  Louise declarou, incapaz de controlar o cime.  Voc o conquistou em tempos difceis.
 Ela foi incrvel  Adam admitiu.  Quando eu deixava meu escritrio, aps trabalhar catorze horas ininterruptas no af de iniciar meu prprio negcio, Trish me fazia rir e relaxar.
 Eu acho que tenho vocao para palhaa  Trish respondeu, sem conseguir entender a insensibilidade de Adam e a insegurana de Louise.
 No. Voc  otimista e cozinha maravilhosamente.  uma verdadeira artista. Conseguiu at mesmo que Christine se alimentasse melhor ao lhe apresentar seus pratos insossos de uma forma to bonita que se tornavam irresistveis.
 No exagere  Trish retrucou.  No curso de hotelaria, ningum cometeu tantas gafes quanto eu. Era um verdadeiro desastre. Mais tarde, quando contava aos amigos sobre meus erros, eles riam s gargalhadas.  Trish baixou o tom de voz, como se fosse fazer uma confidencia.  Meu namorado vive dizendo que essa  minha segunda melhor qualidade.
 E qual  a primeira?  Adam perguntou, subitamente srio.
 No  de sua conta  Trish respondeu de modo engraado, mas sem olhar para ele.  Basta que Tim saiba.
A mudana de atitude de Louise foi imediata.
 Pretendem se casar logo?
 Em novembro, talvez, aps a temporada turstica  Trish mentiu.  E vocs?
Fez-se um momento de silncio.
 Oh, estamos assoberbados de trabalho. Marcaremos a data assim que pudermos  Louise respondeu com uma tentativa de demonstrar despreocupao que no convenceu Trish.  S Deus sabe quando sobrar tempo para organizarmos o casamento, quanto mais a lua-de-mel.
Vocs levam uma vida estressanteTrish murmurou e pensou, com alvio, em sua ilha cercada de guas cor de turquesa, to limpas e cristalinas que dava para ver o fundo em qualquer profundidade.
Uma expresso sonhadora dominou o rosto de Trish. Adam sentiu-se arrebatar de volta ao passado. Ao momento em que beijara aquelas faces, aquelas plpebras, aqueles lbios. Nunca sentira um corpo vibrar com tanto prazer junto ao dele.
Uma onda de paixo o inundou com tanta fora que o assustou. O que mais desejaria no mundo, naquele instante, seria tomar Trish em seus braos e lev-la para sua cama, onde lhe faria amor tantas vezes quantas fosse necessrio para expuls-la para sempre de sua mente e de seu sangue.
Incapaz de raciocinar ao lado de Trish, Adam pediu licena e foi conversar com a organizadora da festa.
Aps alguns minutos, quando recuperou o controle das pernas, afastou-se em direo ao jardim e se apoiou contra o tronco de uma rvore.
O ar estava fresco e perfumado, mas ele sentia um calor infernal. Olhou para o cu. Culpa e raiva se mesclavam em seu interior.
Louise fora rude com Trish. Tratara-a com arrogncia e desnecessrio sarcasmo. Descobrira um lado dela que no julgava existir. Trish, no entanto, continuava a ser a mesma criatura meiga e bem-humorada. E se ela no tivesse se sado to bem em sua prpria defesa, ele a defenderia.
No havia acabado. Essa constatao o fez franzir o cenho.
O cu estava escuro aquela noite. As luzes da cidade eram fortes demais para permitir a viso das estrelas. Mas elas estavam l. Rever Trish, linda e radiante, com sua doura inesgotvel, fizera com que os vus deixassem de toldar sua viso. Trish brilhara como uma estrela a sua frente. Ela era nica, espirituosa e fascinante.
Era abominvel. Como podia estar pensando em outra mulher, na noite que significava a confirmao pblica de seu compromisso com Louise?
Precisava tomar uma atitude a esse respeito. Se levasse Louise para a cama, talvez... Sorriu consigo mesmo ao pensar que Louise no se entregaria sem se preparar antes. Enquanto Trish...
Decidira arrancar Trish de seus pensamentos no momento que acordara naquela terrvel manh, quatro anos antes, e descobrira que ela o havia abandonado sem nem sequer dizer adeus. Era aquele o mtodo que usava para lidar com emoes e problemas sem soluo. O que no imaginara era que a tcnica sempre usada com xito, no funcionara com Trish.
Se fosse honesto consigo mesmo, admitiria que ela sempre ficara presente em sua alma. E agora, com o desejo e a admirao mais uma vez aflorados, no sabia o que fazer.
Adorava-a desde o tempo em que cuidara de Christine. Quando a esposa dera o ltimo suspiro, aps despedir-se em paz e dizer palavras de carinho a ele, aos filhos e a Trish, ele sentira mpetos de abra-la em gratido a tudo que fizera. Mas o receio de transmitir mais do que uma pura gratido, o conteve. Afinal, era muito mais velho e Trish merecia algum de sua prpria idade. No ousou, portanto, estender os braos para ela, at que algo, muito mais forte do que ele, o fez esquecer a promessa que fizera a si mesmo.
Detestava-se por quase ter feito amor com Trish. Abusara da natureza doce e apaixonada daquela garota, pouco mais do que uma menina, e tentara ler em sua atitude algo que nunca existira. O resultado no deveria t-lo surpreendido. Assustara-a tanto que ela precisara fugir.
Adam encostou a testa ao tronco da rvore e fechou os olhos. Precisava pensar e se acalmar. Mas no havia tempo. Ele e Louise haviam assumido tantas responsabilidades no trabalho e passavam tantas horas trancafiados juntos no escritrio que parecera natural estender a sociedade  vida pessoal deles.
Com Louise, ao menos, ele nunca se sentiria vulnervel.
Ouviu um leve rudo de passos e olhou por entre as sombras. Viu Trish, caminhando descala sobre as folhas. Seu corao bateu descompassado. Respirou fundo algumas vezes e ordenou-se calma.
 No est gostando, de minha festa?  perguntou, irnico.
Trish parou abruptamente. Seu susto no foi fingido. Nem seu constrangimento.
 Sinto admitir, mas confesso que no entendo nada do que as pessoas esto dizendo. A linguagem dos computadores  muito complicada para mim.
Adam riu. Era sempre assim com Trish.
  um pequeno e restrito mundo.
 Como o meu  Trish afirmou.  Parece que vivemos em planetas diferentes.
Adam acreditou ouvir um toque de tristeza na admisso.
 Meu planeta est beirando o caos  desabafou.  No tenho tempo livre h sculos.
 Tanto estresse pode prejudic-lo. Por que no tira umas frias?
  um convite?  Adam indagou, antes que pudesse refletir no que estava dizendo.
Trish corou. Ele percebeu que ela estava tentando fugir mais uma vez de seus avanos indesejveis.
 Para que descanse em minha ilha? Oh, no. Como Louise afirmou, voc detestaria. Conto com apenas dois quartos de casal e um de solteiro em minha pousada. Voc se sentiria melhor em um hotel cinco estrelas nas ilhas Seychelles.
 Tomando sol em uma praia?  ele perguntou com cinismo para reagir  mgoa da rejeio.
 Oh, no. Vejo Louise deitada ao sol, mas voc no conseguiria ficar parado. Praticaria esqui aqutico, provavelmente, ou alugaria uma mscara de snorkel para nadar debaixo da gua.
Adam franziu o cenho diante da percepo de Trish. Ela o conhecia melhor do que Louise. Acabara de descrever as pequenas frias que tiveram alguns meses antes, em um fim de semana prolongado. Fora um total desastre.
No tinham realmente uma vida em comum, exceto durante o expediente de trabalho. Faziam ginstica juntos antes do caf da manh e jantavam juntos em bons restaurantes. Mas no havia romance no relacionamento.
Algo em seu olhar deveria t-lo trado, pois Trish cruzou os braos como se sentisse frio.
Que Deus o ajudasse! Deveria estar doente. Seu corpo queria Trish e sua mente o conduzia para Louise. Era ela a mulher que ele escolhera. Louise era indispensvel em sua vida. Precisava torn-la indispensvel em sua cama tambm.
Talvez estivesse nisso a raiz do problema. Ele estava faminto de sexo.

 
CAPTULO II

Trish entrou correndo na cozinha, colocou sobre a pia as flores que acabara de colher, atendeu o telefone com uma das mos e abriu o forno para verificar se o bolo j estava assado com a outra.
 Al? Trish? O que houve com voc?
Adam, Trish pensou.
 Desculpe, mas estava preocupada demais com minha av. Alm disso, detestei Londres. No tinha o que dizer aos convidados. No entendia sobre o que eles falavam. De repente, deu-me uma vontade louca de tirar aquele vestido, vestir minha cala jeans e pegar o trem de volta a Penzance. Cheguei em casa faz duas horas. Desculpe, Petra. Eu pretendia lhe telefonar assim que encontrasse tempo.
 Voc j desapareceu antes sem avisar ningum. O motivo em ambas as vezes foi Adam.
A amiga havia adivinhado!
 Bobagem! Fiquei com saudade de casa. Apenas isso.
Petra no respondeu. Era bvio que no engolira a desculpa.
 H mais algum fugitivo por a? Trish estranhou.
 No. Estou sem hspedes no momento. Alis, eu no poderia ter ido  festa, em caso contrrio. Estou sozinha com minha av e com minhas galinhas. Por qu?
 Adam tambm desapareceu.
O prato, que Trish acabara de pegar no armrio para colocar o bolo, despedaou-se no cho.
 Voc est brincando, no?
 Estou falando srio. Ele deixou um bilhete dizendo que havia surgido um imprevisto. No deixou um telefone para contato e desligou o celular. Louise est a ponto de enlouquecer. Pensei que ele tivesse criado coragem e ido ao seu encontro nesse esconderijo.
 Voc sabe que no me escondo! Moro em uma adorvel casa de pedra em um local idlico. J esteve aqui quatro vezes e disse que adorou o lugar. Como todos que o visitam. A propsito, chegou um pedido de reserva, esta manh, dez minutos depois que coloquei meus ps dentro de casa.
 Em nome de quem?  Petra quis saber.
 Ningum que eu conhea  Trish respondeu.  Sr. Rowe. Mack Rowe.
Petra pareceu perder o flego do outro lado da linha. Em seguida, Trish ouviu uma risadinha.
 O que deu em voc?  perguntou, desconfiada.  Algum est lhe fazendo ccegas?
 Bem que eu gostaria. Preciso desligar agora. D lembranas minhas a Mack. Tchau.
Sem tempo para tentar entender o comportamento de Petra, Trish dirigiu-se ao melhor dos quartos e preparou-o para receber o novo hspede. Enfeitou-o com as flores que acabara de colher, colocou uma lata de biscoitos feitos por ela mesma sobre a mesinha, e tambm revistas. No banheiro, pendurou toalhas limpas e fofas e arrumou sobre a pia, um sabonete natural de flores de laranjeira e frascos com sais de banho.
Antes de fechar a porta, deu uma ltima inspecionada na colcha de croch sobre a cama. Satisfeita, voltou  cozinha para terminar de lavar as verduras para o jantar e preparar uma bandeja para o ch de boas-vindas.
Terminada a tarefa, Trish foi at o jardim e aspirou o perfume das madressilvas. Fizera bem em deixar a festa. Adam estava noivo de outra mulher. Precisava tir-lo da cabea de uma vez por todas. Adam jamais desistiria da vida da cidade e ela jamais desistiria de sua vida em Bryher.
Mas, por mais que quisesse se convencer de que no havia nenhuma chance de um futuro com Adam, no conseguia evitar de sentir um terrvel vazio em seu corao. Era uma bno que algum tivesse resolvido se hospedar justamente aquele dia em sua pousada. Sabia, por experincia passada, que a nica maneira de no pensar em Adam, era trabalhar de sol a sol  exausto.
A volta para casa dera-lhe um pequeno alvio aps a fuga do hotel no meio da noite. Bastara ver os campos verdejantes em substituio aos prdios escuros de Londres para respirar melhor.
Chegara a sorrir consigo mesma quando Land's End surgiu a sua frente. Era ali que a Inglaterra terminava. Alm, s havia o mar e as ilhas Scilly, brilhando como pedras preciosas ao sol.
Era maravilhoso estar em casa. Tim poderia no ser a paixo de sua vida. No costumavam se encontrar com freqncia, uma vez que Tim morava em outra ilha, mas gostavam muito um do outro.
Estava na hora de chegar o barco da tarde. Decidiu ir esper-lo e receber seu novo hspede.
Viu o Land Rover pertencente ao dono do nico hotel da ilha e resolveu trocar algumas palavras com Norman, o motorista.
Quando o barco se aproximou do ancoradouro, Norman e ela foram recepcionar os hspedes.
Em primeiro lugar, saltaram as crianas que voltavam da escola. Em segundo lugar, os hspedes do hotel. Por ltimo, Adam.
Ela perdeu a fala. Adam estava usando o que deveria julgar apropriado para o local. Cala e camisa bege de linho e um suter verde-folha. Continuava a ser um homem da cidade, embora no estivesse de terno e gravata.
Ele depositou as malas no cho e sorriu para ela como se sua presena na ilha fosse a coisa mais natural do mundo.
Sem flego, Trish olhou para Norman e esperou que ele levasse Adam consigo para o hotel. Mas Norman j estava se dirigindo ao Land Rover, sem se importar com o ltimo passageiro.
Ela virou-se novamente para Adam e forou um sorriso.
  melhor voc se apressar. Vai perder sua conduo para o Hell Bay Hotel.
 No me hospedarei l.
Foi o modo como Adam a encarou que a fez entender finalmente.
 Oh, no. Voc no pode ser Mack Rowe. Ele sorriu.
 Usei esse nome quando abri minha firma. Fiz a reserva nesse nome para no ser reconhecido.
Estava explicada a razo do estranho comportamento de Petra, Trish pensou, furiosa com a amiga.
 Por qu?  perguntou, rude.
 Voc no teria aceitado meu pedido de reserva, se soubesse, teria?
Trish poderia t-lo fulminado com os olhos.
 No tinha o direito de me enganar!
 Foi necessrio  ele replicou.  Eu precisava vir e estou aqui. No sou homem de recuar diante de um obstculo.
 No foi voc quem ligou fazendo a reserva  Trish disse em tom de acusao.
 No. Foi um colega.
 Veio a negcios?
 Por que outro motivo seria?  ele retrucou ao mesmo tempo em que apanhava a mala e a pasta de couro preto.  O hotel estava lotado. Pensei em voc.
 Mas, o nico computador da ilha est no hotel. Voc no tem o que fazer aqui.
 Como pode ter certeza?
Trish estreitou os olhos.
 Em Bryher, todos sabem uns sobre os outros.
 Por que no poderia haver algum precisando da ajuda de um expert?
 No h ningum importante o suficiente nesta ilha que requeira sua presena.
 Acho que est enganada.
Sem ter o que responder, Trish limitou-se a fit-lo. Um movimento em seu pescoo, atraiu-lhe a ateno. Adam estava engolindo em seco. Assim como ela. Os ombros largos estavam rgidos.
 Vai me deixar muito tempo de castigo pelo que fiz?  Adam perguntou aps alguns instantes.
 Confesso que sinto-me tentada. Voc merece ser amarrado e passar o resto do dia sob o sol.
Um pequeno sorriso surgiu nos lbios de Adam.
 Obrigado por me submeter a essa simptica acolhida.
A observao conseguia deix-la envergonhada.
 Acho que no h outra sada, exceto hosped-lo em minha pousada. Quanto tempo pretende ficar?  Ela tentou guardar as mos nos bolsos na tentativa de que parassem de tremer.  Seu colega disse que seria uma semana no mximo.
Ela no suportaria. Sete dias sob o mesmo teto que Adam, cozinhando para ele, arrumando seu quarto...
 Ainda no sei. Pagarei duas semanas adiantado em garantia. Espero conseguir resolver meu problema nesse perodo.
Trish agradeceu ao vento por seu rosto ter ficado oculto pelos cabelos. Adam poderia adivinhar seus pensamentos se o visse.
 Duas semanas?
 Voc nem sequer se lembrar de que estou por perto. Onde est seu carro?  Ele indicou o Land Rover que estava desaparecendo na curva alm da igreja.  Pensei que voc tivesse dito que no havia meios de transporte na ilha.
Ela fez sinal para que Adam a seguisse em direo  praia, onde deixara o bugue.
 Ns s os usamos para recepcionar os turistas e para buscar as mercadorias encomendadas. Eu no tenho carro. Quando preciso, pego o bugue emprestado da chcara de flores vizinha, em troca de um ou dois bolos. Andamos muito por aqui. Acho que voc se sentiria melhor se ficasse hospedado na ilha principal ou em Tresco. Bryher no  um lugar adequado para tratar de negcios.
 Preciso ficar em Bryher  Adam declarou.  Nenhum outro lugar me serve.
Ele tornou a soltar a bagagem e olhou ao redor. As rochas, a praia deserta com seus fragmentos de mica brilhando como metal e as colinas verdes. A tenso foi se dissolvendo de suas feies pouco a pouco. De repente, com o vento soprando em seus cabelos, Adam parecia um garoto. Era como se a ilha j estivesse exercendo sua magia sobre ele.
  um lugar idlico  ele murmurou.
 No no inverno  Trish lembrou.  Hell Bay, ou Baa do Inferno, no mereceu esse nome por causa de sua natureza plcida. O Atlntico costuma ficar furioso nessa poca do ano. Muitas vezes, a ilha fica incomunicvel com o resto do mundo.
 Est querendo me assustar para que v embora, Trish?  Adam caoou.
 Claro que no. Pode colocar a bagagem no bugue no momento que quiser. S estou descrevendo os fatos. No  justo enganar turistas dizendo que a ilha  um paraso, com base nos dias de sol apenas. Para conhecer Bryher e am-la,  preciso presenciar seu lado bom e seu lado ruim. As tempestades so to fortes que costumam arrancar os telhados e destruir as hortas.
 Como em um casamento.
Ele no olhou para ela enquanto falava. Ela o observou colocar a bagagem no veculo e tentou adivinhar seus pensamentos. O comentrio, afinal, no fora  toa.
 Voc deve saber o que est dizendo. Depois de trabalhar tantos anos com Louise, devem se conhecer mais do que muitos casais casados.
Adam estava apanhando uma conchinha na areia e ela no conseguiu notar sua reao.
 Estou com calor com esta roupa  ele desabafou.  Podemos ir? Gostaria de vestir algo mais adequado.
Trish subiu no bugue e ligou o motor.
 Ok. Siga-me.
 Est dizendo que eu terei de ir a p?  Adam indagou, perplexo.
Trish fez um movimento afirmativo com a cabea.
 Em poucos dias se acostumar a andar. No se preocupe. No h como se perder aqui. Suba a colina e desa at a baa. Kelp Cottage, minha pousada, fica na praia. Entre pela porta verde. A vermelha  de minha av. Antes de apresent-los, preciso lhe falar a seu respeito.
Antes que Adam tivesse tempo de responder, Trish acelerou e se afastou levantando uma nuvem de areia.
Tinha certeza de que Adam sentiria falta das comodidades da civilizao antes do trmino da primeira semana. Ele estava to pouco  vontade em .sua ilha, como acontecera com ela em Londres. Antes do que esperava, ele se cansaria e diria adeus.
Decidiu trat-lo como se fosse um hspede comum. Boa comida, montanhas de pes caseiros e vinho e tambm um ambiente calmo e acolhedor. No faria jus a sua fama de anfitri exemplar de outra maneira. No podia comprometer seu nome por causa de uma tola paixo de adolescente.
Adam ficou olhando enquanto Trish desaparecia ao longe. As emoes se digladiavam em seu peito.
Viera  ilha com o nico propsito de se libertar de Trish para sempre e, ento, continuar trilhando o caminho que escolhera. Desde o reencontro, em sua festa de noivado, ficara obcecado por lhe fazer amor. Sua nica cura seria uma rejeio total e absoluta. Mais cedo ou mais tarde, Trish ficaria farta de seu assdio e o expulsaria da ilha. E tudo voltaria a ficar bem.
Era um homem orgulhoso. Quando ela o rejeitasse pela segunda vez, ele a arrancaria de sua mente de uma vez por todas.
No podia negar que lhe passara pela cabea, muitas vezes tambm, a possibilidade de eles se tornarem amantes. O que seria um desastre ainda maior do que viver obcecado. Afinal, ele no suportaria a vida em uma pequena ilha perdida no Oceano Atlntico.
Depois que Trish desapareceu de vista, comeou a andar ao som alvoroado de pardais e gaivotas.
De repente, sentiu-se mergulhar em profundo silncio. Os pssaros haviam se afastado. O ar tornou-se impregnado do forte perfume de madressilvas que cresciam entre as pedras.
O cho parecia um tapete verde. Em determinados trechos, as nuances azuis das flores predominavam. O som das ondas quebrando na praia ficava mais e mais distante e o zumbido das abelhas fazia lembrar um pequeno motor.
O celular tocou naquele instante. Deixara-o ligado sem perceber quando o usara em Tresco. Por fora do hbito, fez meno de atender. Mas se conteve a tempo. Um celular naquela ilha parecia um sacrilgio. Desligou-o. No queria contato com nada e com ningum do mundo exterior.
Respirou fundo e soltou o ar lentamente. A tenso acumulada durante anos e as dores de cabea dirias pareceram diminuir como em um passe de mgica. Sem entender o que estava acontecendo, sentiu mpetos de correr e de rir.
Chegou ao topo da colina e olhou a vista. Dava para ver a baa onde desembarcara de um lado, e a baa onde ficava Kelp Cottage do outro. Parecia um cenrio de filme. Ao longe, havia dzias de pequenas ilhas. Conhecia tudo aquilo pelas descries de Trish. Mas a realidade era muito mais impressionante do que palavras. Ele estava deslumbrado.
 Gostou do passeio?  Trish perguntou em tom de provocao.
 Muito  ele respondeu, surpreendendo-a.  Como se chamam aquelas flores roxas que se estendem por grande parte da colina?
  uma espcie de gladolo. Floresce depois que os narcisos.
 Vi pssaros com plumagem preta e branca.
 E bicos e olhos vermelhos? Ns os chamamos de pescadores de ostras  Trish informou. No esperava que Adam fosse se mostrar to interessado pelas belezas da ilha.
 Caminhar foi excelente para mim. Fazia tempo que no me sentia to leve. Acho que nunca gostei tanto de admirar as flores.
 Ns cultivamos muitas espcies exticas na ilha porque temos o privilgio de no saber o significado de uma geada, muito menos de tempestades de neve.
O sorriso de Adam foi contagiante.
 Invejo-a por seu conhecimento sobre a vida selvagem.
Era bom ouvir um elogio. Ela se reservou alguns instantes para sabore-lo antes de responder:
 Conheo meu mundo e voc conhece o seu. Voc me considera esperta porque sei o nome de pssaros, plantas e flores. Saiba que fico boquiaberta quando estou entre pessoas que conversam sobre programas de computador. Bem, se quiser descansar, j levei sua bagagem para o quarto.
 No deveria ter feito isso. A mala estava pesada.
 Estou acostumada. No sou frgil como Louise, mas forte como Rambo.
Adam parecia disposto a contradiz-la, mas acabou mudando de idia, pois se limitou a compar-las, afirmando que Louise era forte de um modo diferente.
Trish forou-se a sorrir. Era um absurdo sentir cime de Louise. No havia nada entre ela e Adam.
 Afinal, voc  um hspede aqui e  meu dever cuidar de seu bem-estar. Venha. Vou lhe mostrar todas as dependncias. Esta  a sala...
Adam examinou o espao confortvel com poltronas forradas de chintz, uma estante repleta de livros e a vista incomparvel do mar e das ilhas.
  bonita e aconchegante. Ser um prazer conversar com voc aqui.
 Eu reservo as noites para fazer pes e bolos  Trish apressou-se a dizer.  Ter de se distrair sozinho. H uma televiso e um aparelho de som.
 No costumo assistir televiso. Como voc, eu costumo trabalhar tambm  noite.
 Pobre Louise!  Trish exclamou enquanto o conduzia ao viveiro de plantas no fundo.
 Ela trabalha comigo.
De repente, Trish puxou uma cadeira de vime para que ele se sentasse. No queria falar sobre Louise.
 Tomar seu caf da manh aqui, entre os gernios e as petnias. Ou na varanda, se estiver calor o suficiente. Agora lhe servirei um ch de boas-vindas e aproveitarei para lhe mostrar o menu desta noite.
 Muito obrigado.
 O po de canela e o bolo de frutas foram feitos esta manh. Tem preferncia por algum tipo de ch?
 Earl Grey com limo  Adam afirmou, srio. Um instante depois, ps-se a rir.  Acompanhe-me, Trish. E pare de me tratar com formalidade.
 Estou lhe dando o mesmo tratamento que dou a meus hspedes  Trish justificou.  Se no seguir o roteiro, no me responsabilizarei pelos esquecimentos.
Deixou-o rindo. Enquanto colocava uma chaleira de gua para ferver, perguntou-se se deveria ou no aceitar o convite para o ch. Tinha mil coisas para fazer. Por outro lado, no podia recusar. Tomaria uma xcara apenas. Em nome da amizade.
Ela estava se aproximando com a bandeja e viu o olhar de Adam perdido na distncia.
 O ch est servido!  tentou imprimir entusiasmo  voz.  S poderei parar para uma xcara. Se no cuidar das ervas daninhas de meu jardim, elas acabaro cobrindo a ilha inteira.
O sorriso de Adam teve o poder de aquec-la. E o ch exerceu o mesmo efeito sobre ele, aparentemente, pois tirou o suter e enrolou as mangas da camisa at os cotovelos. Quando tornou a apoi-los na cadeira, tocou-a de leve, e foi o suficiente para ela engasgar com o ch.
Adam se levantou no mesmo instante e bateu em suas costas. No retirou as mos, contudo, mesmo depois que ela parou de tossir. E ela no teve foras para dispensar a massagem.
Quando pensou estar ouvindo a respirao de Adam acelerar, ele voltou a sua cadeira e perguntou se ela j estava bem. No. Queria mais.
 Sim, obrigada. Ainda bem que voc estava aqui. J pensou como seria horrvel se constasse morte por asfixia provocada por ch em meu atestado de bito?
Adam deu um pequeno sorriso ao ouvir sua piada sem graa.
Desesperada para se afastar daquela presena perturbadora, Trish cortou uma fatia do bolo de frutas e colocou-a em um prato.
 Espero que goste. Agora, preciso ir.
 Antes, fale-me sobre seu jardim  Adam pediu e indicou as margaridas e as rosas que disputavam um espao com os vegetais e o mato.  Herdou esse amor pelas plantas de sua me, no?
Havia tristeza e ternura no sorriso de Trish por Adam ter se lembrado de que sua falecida me havia trabalhado nos famosos jardins exticos de Tresco. O que ele no sabia era que o talento se aliara  necessidade porque o marido a havia abandonado e  filha logo aps seu nascimento.
A tristeza a dominou nesse instante e o sorriso desapareceu de seu rosto. Pessoas da cidade como seu pai tinham dificuldade em se adaptar  vida simples da ilha. Por mais que tentassem, no conseguiam tolerar a solido.
 Sinto muito.  Adam estendeu a mo em um gesto instintivo de consolo. Mas hesitou antes de toc-la.  No era minha inteno evocar lembranas tristes do passado.
 Acho que ningum consegue escapar de alguma experincia triste na vida.  preciso aprender a conviver com elas.
 Ou enterr-las  Adam sugeriu.
 Oh, no! Isso significaria enterrar tambm os momentos bons.
 Eu nunca pensei assim.
 Nem tudo no passado representa sofrimento. Quando penso em minha me, por exemplo, lembro apenas da alegria de termos uma  outra. Ela no tinha dinheiro mas deixou-me um legado maravilhoso: amor e este jardim. Penso nela cada vez que caminho por entre estas plantas.
Alguns minutos se passaram. Foi Adam quem quebrou o silncio.
 Posso ver o cardpio?
Ela corou. Ficara to empolgada com a conversa sobre o jardim que se esquecera de seu dever.
 Escolha  vontade. Quando estiver pronto, procure-me.
 A que horas ser o jantar?
 As sete e trinta, mas,  partir das sete, poder se servir de aperitivos e saborear alguns salgadinhos caseiros.
 Confesso que j estou com gua na boca  Adam disse, malicioso.  Posso contar com voc para isso?
Era o tipo de comentrio que a teria feito rir em outra ocasio. Naquele momento, contudo, Trish baixou a cabea e se afastou. Mas Adam seguiu-a.
 Sempre bebo com meus hspedes.  Ela fez questo de responder com a mesma delicadeza que dedicaria a um estranho.  Conheo meu dever de anfitri. Espero que voc tambm conhea seu papel de hspede: contar sobre seu dia, mostrar os suvenires que comprou e quando passar a discorrer sobre seu trabalho, eu fingirei interesse, mas logo pedirei desculpas e correrei para a cozinha para verificar se a sopa no est queimando.
 Combinado  Adam respondeu, divertido.
 Voc se esqueceu apenas de um detalhe.
 Qual?  Trish perguntou, intrigada.
 No me deu uma cpia da chave.
 Oh, ningum usa chaves por aqui. Acho que nem sequer tenho uma. Nunca houve vandalismo. A palavra crime  desconhecida.
 Foi o que me ocorreu quando cheguei a Tresco  Adam contou.  Disseram que o barco para esta ilha demoraria uma hora e que eu poderia deixar a bagagem na entrada do caf e dar uma volta.
O modo como Adam a fitava a impedia de respirar. Tentou engolir, mas parecia haver se formado um n em sua garganta.
 Voc fez isso?
Ele se aproximou ainda mais. Poucos centmetros os separavam.
 No. Ainda estava amarrado s correntes da cidade. No podia me separar de meu laptop. Em vez de passear, fiz uma poro de ligaes em meu celular. Sempre de olho,  claro, nas pessoas que se aproximavam de minha bagagem.
Por mais que tentasse, Trish no conseguiu prestar ateno ao que Adam estava dizendo. Estava fascinada pelo movimento daqueles lbios. Para voltar  realidade, apertou os punhos at sentir as unhas cravarem nas palmas.
 Ligou para Louise tambm, eu imagino.
 Sim. Deixei uma mensagem em sua secretria eletrnica.
 E informaes sobre seu paradeiro.
 No. Tenho certeza de que ela no gostaria de saber.
Os olhares se cruzaram. Ento o cime de Louise no passara despercebido a Adam. Ele sabia sobre seus sentimentos tambm. De nada adiantara tentar escond-los.
 Acho que ela me considera uma ameaa  Trish murmurou.
 Voc ?
Por sorte, estava de costas para ele naquele momento.
 Por que seria?  Ela girou o corpo e encarou-o. Era difcil admitir que no tinha atrativos para competir com Louise, mas precisava fazer isso.  Olhe para mim!
 Estou olhando  Adam respondeu com o cenho franzido.
 No tento me iludir, Adam. No freqento institutos de beleza. Minha av corta meus cabelos, no uso maquilagem, no possuo roupas bonitas e no tenho traquejo social. Ao contrrio de Louise.
Um brilho metlico surgiu nos olhos de Adam.
 Sim. Louise tem beleza, sofisticao, graa, traquejo social...
Trish interrompeu-o com seu riso falso.
 Ok, ok. No precisa me ofender.
 Ofend-la?  Adam indagou e acariciou-lhe o rosto com as costas da mo. O gesto foi to inesperado que Trish sentiu dificuldade em respirar.  Voc  linda. E se eu lhe dissesse que  a mulher mais linda que j conheci, a mais desejvel?
 Eu desmaiaria de espanto!  Trish tentou brincar.  Ou rolaria no cho de tanto rir.  De repente, Adam segurou-a pelos braos.  Eu lhe aconselharia a consultar um oftalmologista, talvez. Adam? Poderia me soltar, por favor? Tenho muito trabalho a fazer.
Ele a soltou abruptamente e ela se ajoelhou. Comeou a arrancar as ervas daninhas como se disso dependesse sua vida.
 Trish.
 O que foi?  perguntou, sem erguer a cabea.
 O cardpio. Confesso que estou impressionado. Apesar das limitaes da ilha, voc consegue oferecer uma variedade fantstica.
 Se preferir algo mais nativo, posso lhe preparar torradas com algas marinhas  ela ironizou.
Adam sorriu.
 Conheo seus dotes culinrios. No perderia a oportunidade de provar seus pratos por nada no mundo. Minha escolha para hoje  aspargos ao molho Stilton, creme de batatas, noisettes de cordeiro e morangos Bryher. E uma garrafa de Rioja. Estou com gua na boca.
 Pois trate de economizar sua saliva para a digesto. O jantar no ficar pronto antes das sete e trinta.
 Tudo bem  Adam murmurou enquanto retirava algumas ptalas de gernio dos cabelos negros de Trish.  Quando voc espera muito por algo, valoriza ainda mais a conquista.
 Quando voc espera muito por algo, a frustrao  maior se for impossvel conquist-lo  Trish retrucou e voltou a atacar as ervas daninhas.
Adam suspirou. Seu plano no estava funcionando. Embora Trish estivesse dando todas as indicaes de que ele no era bem-vindo na ilha, ele ainda a desejava com todas as fibras de seu ser.
Trish no fazia idia do quanto era bonita e sensual. Por pouco no cedera ao impulso de abra-la pelas costas e pressionar seu corpo contra aquelas pernas deslumbrantes que a cala jeans realava.
A rejeio de Trish estava surtindo efeito contrrio. Em vez de afast-lo, cada vez ele queria ficar mais perto dela. Trish o fazia pensar nas coisas boas da vida. Ela o fazia rir.
Precisava se decidir. Havia duas alternativas. Ou ele a tomava nos braos e a beijava com toda sua paixo. Ou se afastava de uma vez por todas.
Ele sabia, sempre soubera, o que queria. Mesmo que sua ao resultasse em um tapa. Depois, ento, seria obrigado a ir embora e se afastar para sempre.
Mas ele era um homem e tinha honra. J havia passado da idade de seguir um impulso irracional apenas para satisfazer seu ego. Alm disso, precisava ter em mente que Trish pertencia a outro.
Foi esse pensamento que o fez decidir. No a entregaria a outro sem ao menos tentar lutar.
Encaminhou-se para ela. Como se pressentisse a aproximao, Trish virou-se e se levantou. Ficou imvel. Ele estava com os olhos fixos nos lbios entreabertos, prontos para seus beijos.

 
CAPTULO III

 O que est fazendo com ela? Solte-a!
Adam e Trish separaram-se bruscamente ao grito. Assustada, Trish deu um passo para trs e tropeou no cabo da enxada. Para ampar-la, Adam agarrou-a pela cintura, mas perdeu o equilbrio.
Ao sentir os golpes sobre Adam, Trish o abraou instintivamente para proteg-lo. Aconteceu to rpido que s conseguiu ver o agressor quando Adam girou o corpo para se defender do ataque.
 Vov! Pare!
Um instante depois, Adam e Trish estavam rindo. Um homem daquele tamanho com medo de uma velhinha de cabelos totalmente brancos era hilrio. Assim como a ousadia dela em agredi-lo!
 Ele assaltou-a  a av disse, indignada.  Eu vi quando se aproximou de modo que voc no percebesse.
Ser beijada por Adam era tudo que eu queria, vov, Trish desejaria dizer. Adam se levantou e lhe estendeu a mo.
 Obrigada  agradeceu, envergonhada.
 Obrigado por me proteger.
 Desculpe. Voc est bem?
 Ele pode estar, mas a cala...  zombou a av. Adam limpou o tecido impregnado de folhas e de mato recm-arrancado. Trish acompanhou cada movimento. Quando Adam tornou a fit-la, engoliu em seco e tornou a se desculpar.
 Sinto muito. Talvez fosse melhor voc usar outro tipo de roupa aqui. Jeans, por exemplo.
 Est tentando me prevenir de que esse tipo de acontecimento ser dirio?  Adam caoou.
 Quem sabe? Vov  imprevisvel  Trish confidenciou para em seguida dizer em voz alta.  Vov, este  Adam Foster, o padrasto de Petra. Adam, esta  minha av, sra. Hicks.  Depois que os dois apertaram-se as mos, Trish prosseguiu.  Eu morei algum tempo com a famlia de Petra em Truro, lembra-se?
 Como poderia esquecer? Voc voltou inesperadamente em um estado deplorvel. Eu tive certeza de que a causa s poderia ser um homem.
Trish ficou rubra. A memria de sua av raramente funcionava. Por que resolvera se mostrar to perfeita aquele dia?
 Adam ficar conosco por uma semana...
 Oh, j entendi  a av interrompeu.  No precisa dizer mais nada. Vocs voltaram. Ele estava se aproximando, sorrateiro, para lhe roubar um beijo.
 No!  Os dois negaram em unssono.
A av deu um tapinha no brao de Trish e depois lhe apertou a ponta do nariz.
 No se preocupe. No me intrometerei.  Ela se virou para Adam.  Prefiro voc ao tal Tony.
 Tim  Trish corrigiu.
  um bom garoto  a av continuou sem ligar para a observao.  Mas no tem nenhum fogo nas veias.
 Vov!
A sra. Hicks fez um movimento de descaso com o ombro.
 Trish precisa de um homem de verdade, como voc.
 Obrigado  Adam agradeceu, divertido.
 Estou sendo franca. Acho que voc serve.
 Vov!  Trish tornou a protestar.  No me envergonhe!
A velha senhora se apoiou sobre a bengala que usara para bater em Adam e fez meno de se afastar. Antes, porm, tornou a se dirigir a ele.
 Trish  uma boa moa. Cuidou da me at o fim e est fazendo o mesmo comigo. Tem um corao de ouro. Voc no poderia ter escolhido melhor.
 Tenho certeza disso  Adam respondeu.
 No lhe d ouvidos!  Trish aconselhou.  Vov, pare com isso! Ele no est interessado em mim.
 Claro que est! Leio isso em seus rostos. Voc est vermelha como um pimento e ele no poderia se mostrar mais satisfeito.
No mesmo instante, as expresses de ambos tornaram-se indecifrveis.
 Desculpe, Adam. Eu deveria t-lo prevenido. Minha av  muito direta.
 No me importo. Gosto de pessoas assim. Posso acompanh-la at sua casa, sra. Hicks? 
 Voc  um cavalheiro, mas no  preciso. Embora tenha oitenta e cinco anos, no sou senil. Fique com Trish e lhe d um beijo sem interrupes desta vez.
 Pare com isso, vov!  Trish ordenou, zangada.  Se continuar se portando desse jeito, serei obrigada a chamar os homens de aventais brancos!
 Aposto que eles teriam um trabalho imenso para lev-la  Adam brincou.
 Voc est certo  Trish concordou com um suspiro.  Acho melhor ir para a cozinha ou o jantar no ficar pronto em tempo.
 Pea para que ele a ajude  disse a av que j estava a alguns metros de distncia.
 Ele  meu hspede. Chamei Lucy para me ajudar.
 Se ele  o nico hspede, para que precisa de Lucy? Assim, nunca ganhar dinheiro!
 No sou eu que preciso de Lucy. Lucy  quem precisa de mim.
 Todos ns precisamos de voc. Inclusive ele  a av acrescentou e fez um gesto em direo a Adam.
Adam piscou para a sra. Hicks enquanto a ajudava a desembarcar um novelo de l que ela estava usando para tricotar um cachecol que j deveria estar medindo uns trs metros de comprimento.
 A senhora  esperta demais. Enxerga longe e sabe mais do que deixa transparecer  disse Adam.
 Trish no sabe o que est perdendo  murmurou a av.  Diga a ela que passarei esta noite em casa de uma amiga, e feche a porta quando sair.
Adam entendeu a mensagem e se despediu. Mal podia esperar para ver Trish e comprovar as in-li >rinaes de sua av de que ela nunca o esquecera e de que seu relacionamento com Tim no passava de uma amizade.
O desejo de beij-la, de toc-la e de lhe fazer amor tornou-se incontrolvel. Precisava descobrir a verdade. De uma maneira ou de outra. O que no podia era continuar noivo de Louise, pensando em Trish.
At que Adam voltasse ao chal, a pulsao de Trish j havia retornado ao normal. Precisava usar a mente e no o corao. O que sua av dissera, no podia ser entendido como uma declarao de amor.
Adam era inteligente. Reconhecera que sua av tinha problemas e a deixara falar, como cavalheiro que era.
 Aproveitou o tempo para dar um passeio?  perguntou quando Adam entrou na cozinha.
 No. Estive conversando com sua av.
O olhar de Trish tornou-se cauteloso. A impresso que dava era que Adam acabara de ganhar na loteria. Pestanejou. O que teria acontecido?
 Voc est sendo muito amvel com minha av, depois que ela quase lhe partiu os ossos. Obrigada  ela disse, de costas.
 De nada Ns tivemos uma conversa interessante.
Trish sentiu o sangue lhe subir ao rosto, mas sua voz soou normal ao perguntar:
 Sobre o qu?
 Sobre tric.
55
O AMOR EM NOSSAS VIDAS
 Tric?  repetiu, perplexa.
 Ela estava me dizendo que vive perdendo pontos e que voc sempre tem pacincia para consertar seus erros.
 Sinto muito, Adam  Trish balanou a cabea.  Ela deve t-lo cansado.  bvio que estava tentando me promover aos seus olhos.
 Com sucesso  Adam admitiu.  Ela me convenceu. Voc  uma neta maravilhosa.
 Ela tambm  uma av maravilhosa. Cuidou de mim depois que minha me morreu.
 Pensei que tivesse sido voc quem cuidou de ambas.
 Eu no estava me referindo ao trabalho fsico, mas ao aspecto emocional. Todos ns precisamos de um ombro para chorar de vez em quando. Foi o que nos aconteceu quando perdemos Christine.
Uma sombra havia descido sobre ele.
 No gosto de recordar o passado. Tampouco sou adepto da autopiedade.
O tom, mais do que as palavras de Adam, era um aviso para que ela desistisse do assunto. Respeitou-o. Conhecia Adam o suficiente para saber que ele no gostava de falar sobre fatos tristes.
 Costumo dar algumas explicaes sobre minha av aos hspedes para que no fiquem constrangidos caso ela se aproxime. Ela sempre diz o que pensa. E vive fazendo ameaas com aquela bengala. Pode ser embaraoso s vezes.
 S ameaas?  Adam moveu os ombros e fez uma careta de dor.
 Ela o machucou?
 Um pouco.
 Quer que eu o examine?
Adam comeou a desabotoar a camisa. Quando se deu conta de que estava com a respirao suspensa, Trish se afastou para buscar o estojo de primeiros socorros.
 Espero que sua av no entre aqui de repente. Ela poderia tirar uma concluso precipitada.
Trish tentou rir, mas acabou engolindo em seco. Adam estava irresistvel com o torso nu. Ela nem sequer se lembrou de verificar os provveis hematomas. Principalmente quando ele se foi at a porta e calou o trinco com uma cadeira.
 S por precauo  disse e piscou para ela.
Um arrepio percorreu as costas de Trish. No parecia precauo contra sua av. Parecia uma preparao para um ato ilcito.
 Onde di?  ela perguntou.
 Na altura dos ombros.
 Vire-se.
A voz de Trish havia se transformado em um murmrio. Ela queria toc-lo. Ansiosamente. Mas no ousava. Estranhou que a pele estivesse bronzeada. Lembrou-se, ento, de que ele havia viajado com Louise para o Caribe e recuperou o bom senso.
Aplicou uma soluo de arnica em todas as manchas e massageou delicadamente cada um dos msculos at a completa absoro do remdio.
 Acabei  disse, por fim.  Peo que desculpe minha av mais uma vez. Ela nunca havia agredido um hspede antes.
Adam permaneceu sem a camisa.
 No se preocupe. No a processarei. Ela s estava defendendo-a. S Deus sabe quem pensou que eu fosse.
 Jack, o estripador, talvez. Ou Casanova. Ela  uma caixa de surpresas. Um dia est bem. O outro, esquece-se de comer.  Trish consultou seu relgio de pulso.  Lucy est demorando. Ela no costuma se atrasar.
 Ela no vir.
 Como sabe?
 Sua av a dispensou. Eu a ouvi fazer isso quando sa de sua cabana. A propsito, ela pediu que eu a avisasse que dormir em casa de uma amiga. Por que Lucy precisa de voc?
Trish ficou confusa. Sua av no costumava agir daquele modo. Nem Lucy. E Adam estava encarando-a de um jeito diferente.
 Eu pretendia lhe falar sobre Lucy tambm.
 Esta ilha tem muitas histrias. Confesso que estou curioso. Qual o problema de Lucy?
 Ela  gaga.
O sorriso desapareceu instantaneamente dos lbios de Adam.
 Pobre moa. No  de admirar que seja tmida. Sei como se sente. As pessoas fazem gozao. Eu passei por isso.
Naquele instante, Trish percebeu que no sabia nada sobre Adam e desejou saber tudo. Sobre sua infncia, sobre sua adolescncia e juventude.
Mas esse direito pertencia a Louise. Conversas ntimas eram conseqncias de uma longa amizade e de momentos de ternura aps o amor.
 Eu nunca imaginaria.
 Aprendi a controlar a respirao. Deu certo. E um mtodo que costuma funcionar com a maioria das pessoas.
 Acha que funcionaria com Lucy?
 Eu poderia tentar. Teria muito prazer em ajud-la.
 Duvido que ela queira. No costuma falar com estranhos.
 Eu no a magoaria. Voc sabe disso.
 Desculpe. Talvez eu esteja errada em querer superproteg-la.
 Eu sei. Voc a contratou apesar de no precisar de seus servios.
 No faria o mesmo em meu lugar?  Trish indagou, surpresa.  Qualquer um no faria o mesmo?
 No necessariamente. As pessoas, em geral, pensam em termos de lucros.
 No nesta ilha. Aqui ns cuidamos uns dos outros. Estou ensinando-a a cozinhar.  Trish parou de falar de repente e disse, irritada.  Por que no veste sua camisa?
 No vale a pena. Daqui a pouco subirei para tomar um banho.
 Se no for j, eu lhe darei um servio.
 Por mim, tudo bem, embora no saiba nada sobre a arte culinria.
 Nesse caso,  tempo de aprender. H coisas que todo futuro marido deve saber.
Mal ela acabou de falar, Adam estava a seu lado, lavando as mos e apontando para a tigela com batatas.
Ele empurrou-a com o quadril, quando a viu boquiaberta.
Trish resmungou consigo mesma. Quando aprenderia a ser uma mulher sedutora? Outra o teria convidado para tomar um vinho. Ela o convidava para descascar batatas!
Observou-o em silncio por alguns instantes. Quando notou que no sobraria nada para o jantar, colocou sua mo instintivamente sobre a dele.
Os olhares se cruzaram. Um brilho perigoso surgiu nos olhos de Adam. Ela retirou a mo.
 Fiz algo errado?  ele perguntou.
 Eu... Ah, lembrei! Tire apenas a casca. A parte branca  para comer.
 Ok  Adam respondeu com um sorriso.  Eu me distra.
 No faa isso se no quiser se cortar  Trish aconselhou, sria.
Ele pareceu seguir suas instrues literalmente. Ela aproveitou para observ-lo. Com os olhos voltados para baixo, os clios espessos quase tocavam as faces. Os lbios estavam relaxados. Adam estava to perto dela que seus braos roavam um no outro e a maciez dos plos provocavam arrepios erticos por todo seu corpo.
 Voc  uma pessoa extraordinria, Trish.
As palavras vibraram de uma maneira incomum. Talvez por ele t-las sussurrado, mais do que pronunciado. E talvez tambm por esse motivo, ela se inclinou para ele, como se precisasse ficar ainda mais perto para ouvi-lo. Adam deixou cair a faca. Em vez de recuper-la, ficou parado, olhando-a apenas. Mas em vez de beij-la, como esperava que fizesse, Adam balanou a cabea e mergulhou a mo na tigela com gua e batatas em busca da faca.
Trish teve dificuldade em retornar do mundo de fantasia em que ingressara. Mas conseguiu e no mediu esforos para restabelecer o clima de cordialidade e descontrao.
 Por que disse isso?
 Porque voc assume responsabilidades que outros rejeitariam. Deveria ser quase uma criana ainda na poca em que cuidou de sua me. Ela morreu quando voc tinha quinze anos, no? Como fez com os estudos?
 Eu passei de ano  Trish respondeu.  Minha av no estava to mal da artrite ainda. Enquanto eu estava no colgio em St. Mary, ela cuidava da pousada e de minha me.
 Voc viajava todos os dias?  Adam perguntou, surpreso.   uma longa distncia.
Contente com o interesse demonstrado pelos pequenos detalhes de sua vida, Trish prosseguiu com sua histria.
 No. Isso seria impossvel. Principalmente no inverno. As crianas de Bryher freqentam a escola de Tresco dos cinco aos onze anos. Mais tarde, assim como as crianas das demais ilhas, passam a estudar no semi internato de St. Mary, de segunda a sexta. Durante o ano em que minha me adoeceu, eu dedicava os fins de semana, feriados e frias s compras no supermercado, ao preparo de bolos e tortas e ainda dava um jeito de lavar e passar a roupa e limpar a pousada, de forma a poupar minha av do trabalho pesado.
 Eu no sabia. Voc nunca me contou.
 Christine necessitava de todo nosso tempo, lembra-se? Alm disso, como eu podia falar de minha doente a outra doente? Precisava anim-la, no deix-la ainda mais deprimida.
 Ns exigimos demais de voc. E voc nunca se queixou. Cuidou de pessoas doentes no passado e no presente est acontecendo o mesmo. No sente falta de um tempo para si prpria? No sonha ser livre?
Trish sorriu.
 Eu sou livre! Fao o que gosto. Como posso me sentir mal se estou ajudando pessoas que amo?
 Voc amadureceu mais cedo do que a maioria, eu diria.
 Acho que sim, mas viver nesta ilha me ajudou. Nossa comunidade trabalha muito, mas tambm se diverte muito. Esta pousada era um refgio de alegria quando minha me era viva. O pessoal se reunia aqui e contava casos e histrias. Ramos muito, danvamos e cantvamos.
 Agora entendo porque todos a adoravam no hospital. Voc no encara a morte com medo ou com tristeza.
 Tampouco foro risadas quando o momento  imprprio.  preciso saber escolher as ocasies.
Enquanto falava, Trish acrescentou um punhado de folhas de hortel ao molho. O aroma tornou-se to delicioso que ela e Adam o aspiraram ao mesmo tempo. E seus rostos subitamente se tocaram.
No mesmo instante, ele largou a faca e a batata e segurou-lhe o queixo.
 O que est fazendo?  Trish indagou.
 O que pretendia fazer quando sua av nos interrompeu  Adam murmurou junto a seus lbios.
As pernas de Trish dobraram sob seu peso. Ela queria se render  paixo mais do que tudo no mundo, mas o medo venceu.
 No! Solte-me, Adam!
Ele se afastou, mas no havia mgoa em sua expresso. Ela teve certeza, naquele momento, que a inteno no fora abandonada. Apenas adiada.
Adam sabia que no lhe era indiferente. Reconhecera os sinais que ela tentara esconder sem xito. Como homem que era, sentia quando era desejado por uma mulher.
E ela o desejava e queria. Mas no podia relevar o fato de que Adam era noivo de outra.
 Acho que vou desfazer as malas, tomar um banho e dar uns telefonemas antes do jantar  Adam anunciou.
Trish limitou-se a fazer um movimento afirmativo com a cabea sem desviar os olhos do fogo. Adam hesitou. Alguns minutos depois, colocou a cadeira no lugar, apanhou a camisa e saiu.
Ela o ignorou, s sete e quinze, quando ele desceu para o aperitivo, e fez o mesmo durante o jantar. Quando a tenso se tornou insuportvel na sala, perguntou:
 No gostou das entradas?
 Como? Desculpe, Trish. Estava longe daqui. O jantar estava excelente. Surgiram problemas. Terei de voltar para Londres amanh.
 Em definitivo?  ela indagou com um fio de voz.
Adam encarou-a por um longo tempo. Era como se estivesse lhe dizendo que aquela noite talvez fosse a nica chance de ficarem juntos.
 Difcil afirmar.
Trish se levantou e levou os pratos para a pia. Sua vontade era desabar em lgrimas. Adam estava de partida. Poderia nunca mais voltar. Queria-o. Desejava-o tanto que no sabia como reagir.
Engoliu em seco. Colocou o prato principal em uma bandeja e voltou para a sala. Mais do nunca, precisava ocultar seus sentimentos.
Serviu Adam em silncio e tambm em silncio retornou  cozinha onde demorou mais do que seria necessrio para preparar os morangos.
 Trish, por favor me desculpe  Adam murmurou.  No fiz justia ao seu delicioso jantar. Estou muito preocupado.
 Com o trabalho.
 No.
 Com voc. Conosco.
Ela se deteve. Ele estendeu os braos e puxou-a suavemente. Virou-se na cadeira e prendeu-a entre as pernas.
 Precisamos resolver isso, Trish.
Ela o encarou, fascinada.
 Isso o qu?
Adam levantou-se to abruptamente que a cadeira tombou para trs. Trish sentiu o corao parar e em seguida pulsar depressa, impulsionado pela fora daquele olhar.
 Voc e eu.
Tentou se afastar, mas Adam no permitiu.
 No h voc e eu.
 Eu gostaria de lhe dar razo, mas no posso.
Ela estremeceu. Seu corpo traiu-a.
 Eu te quero!  Adam confessou.
Trish sentiu-se derreter. Os lbios estavam quase se tocando. Todos os nervos estavam  flor da pele. As respiraes estavam aceleradas.
Quando os lbios finalmente se encontraram, Adam deixou escapar um gemido rouco. De suave, o beijo tornou-se ardente, apaixonado, febril.
Ela fechou os olhos e abraou-o. Depois acariciou-lhe a testa, as sobrancelhas, as faces, at o pescoo. Era maravilhoso senti-lo. Adam era tudo que sonhara.
Esquecida do mundo, entregou-se aos beijos e ao prazer. O desejo de Adam excitava-a. Era intenso. Traduzia-se nos movimentos impacientes de suas mos, em sua respirao ofegante, em seus beijos possessivos.
No saberia dizer em que momento Adam deslizara as mos sob o tecido da blusa. Isso aconteceu quando ele gemeu alto na descoberta de que ela no estava usando nada por baixo.
Um minuto depois, sem abrir os olhos, Trish percebeu que Adam estava desabotoando a blusa e tirando-a. Como se passou mais um minuto sem que voltasse a toc-la, abriu lentamente os olhos. Ele estava parado, com os braos soltos ao longo do corpo. Estudava os contornos dos seios, dos ombros e da cintura.
Ela ansiava para que Adam os tocasse novamente. Em vez disso, tremendo muito, ele abraou-a e pro-
65
O AMOR EM NOSSAS VIDAS
vocou-a com beijos rpidos, saboreando-a com a ponta da lngua. At que... Um arrepio lhe subiu pelas costas ao sentir as mos de Adam moldando cada um dos seios sem que ele parasse de beij-la.
 Eu tambm quero voc...  ela sussurrou. Em uma doce e ertica carcia, Adam apossou-se de cada um dos mamilos com a boca.
 Trish...
Ela sentiu que flutuava. Abriu os olhos e percebeu que estava no colo de Adam. Ele a carregava pela escada. Enlaou-o pelo pescoo, bria de felicidade por ser a responsvel por tanto arrebatamento, e beijou-o com total intensidade.
A maciez da colcha a recebeu. Em seguida, foi coberta pelo corpo de Adam. Mas ele se afastou em seguida para se despir.
No podia esperar! Estava ansiosa por fazerem amor. Com as mos trmulas, mas decididas, quis ajud-lo a desafivelar o cinto. Gemeu de frustrao quando no conseguiu seu intento. Mas Adam afastou suas mos e livrou-se em seguida da cala.
Ela o amava. No era apenas paixo o que sempre sentira por Adam. No era um sentimento passageiro. Amava-o e continuaria amando-o.
 Faa amor comigo  ela implorou.
O brilho que viu nos olhos de Adam engolfou-a por inteiro. A sensao daquele contato pele com pele a fez sentir feminina como nunca. Estava pronta para ele.
 Preciso de voc, Trish.
 Eu tambm preciso de voc, Adam.
Ele a penetrou nesse instante, tirando-lhe o flego com a dor aguda. Mas ela continuou atraindo-o pelos quadris de encontro ao prprio corpo.
 Oh, Adam, mais, mais!
Algo estava acontecendo com ela. No sabia explicar o qu. Sua nica certeza era de estar fazendo amor com o homem que sempre adorara. De um modo intenso e quase rude. Chegaram a gemer alto no instante final para depois ficarem inertes, sem foras para falar ou se mover.
Aps um longo silncio, em que Trish se sentiu em xtase, Adam ajeitou-a sobre o travesseiro e cobriu-a com um lenol. Sua nica reao foi sorrir, abra-lo e adormecer quase instantaneamente.

 
CAPTULO IV

A cena iluminada pela claridade da manh chocou Trish. A brutalidade de seu erro estava diante de seus olhos, sobre seu corpo. Adam e ela haviam dormido abraados, e ele ainda conservava um brao sobre seu quadril.
Assaltada pelo pnico, Trish encolheu-se. Adam amava outra mulher. Ela era apenas sua amante. Com sua insensatez, trara tudo em que sempre acreditara: fidelidade, honestidade e considerao pelos outros.
Envergonhava-se de si mesma, e seu mal-estar aumentou ainda mais quando seu olhar recaiu sobre a aliana no dedo de Adam.
Precisava sair dali! Se Adam despertasse, sorrisse e a convidasse para fazer amor novamente, no suportaria.
Levantou-se e foi ao banheiro nas pontas dos ps. Ligou o chuveiro e esperou que o jato quente a fizesse parar de tremer. Depois, terminou com uma ducha fria.
Fizera papel de tola. A noite anterior no havia significado nada para Adam. Talvez fosse a primeira vez que ele ficava longe de Louise e a necessidade de sexo superara o bom senso. Ou, ento, sentira falta de diverso na ilha.
Ela, contudo, ficara ainda mais apaixonada por ele.
 Oh, Deus! No posso am-lo! No deveria ter deixado que me fizesse amor!
Tentou afast-lo da mente, imaginando-o casado com Louise, carregando o filho deles nos braos.
Nesse instante, sentiu o ar lhe faltar. Nenhum dos dois havia tomado nenhuma precauo. Ela poderia estar grvida! Queria muito ter um filho, mas no assim! Queria um casamento, um marido devotado, uma famlia respeitada...
Furiosa consigo mesma, Trish deu um grito. Em seguida, ps-se a chorar.
 Trish?
Ergueu o rosto e as lgrimas se misturaram  gua. No conseguiu responder. Adam tornou a cham-la. No recebendo resposta, abriu o box, olhou para ela e puxou-a pelo pulso.
 Solte-me! Deixe-me em paz!
Se ela estava furiosa, ele tambm ficou. Atirou-lhe uma toalha sobre a cabea e outra ao redor dos ombros, sem se importar com a camisa e com os prprios cabelos que haviam se molhado. Em seguida, ps-se a enxug-la vigorosamente.
 Est me machucando!  Trish protestou.
 Ento faa isso voc mesma. Mas, depressa. Est tremendo.
Ele recuou um passo. Ao notar que Trish continuava imvel, sentou-se e a puxou para seu colo onde terminou de enxug-la.
Trish no teve foras para afast-lo. Sua vontade era esquecer o resto do mundo e deitar a cabea no peito de Adam, deixando-se embalar pelos sentimentos que a inundavam.
 Vou me vestir  disse, de repente.
 E depois me explicar o que aconteceu.
Nesse instante, Trish conseguiu voltar a si.
 Explicar? Meu Deus, Adam! Voc no se envergonha? No se sente culpado?
Ela se dirigiu ao quarto. Adam seguiu-a. No adiantava tentar evitar uma situao. Mais cedo ou mais tarde, seria obrigada a enfrentar o inevitvel constrangimento. Estava to arrasada emocionalmente que nem sequer se importou com sua nudez.
Olhou para ele enquanto se vestia. Os cabelos estavam gotejantes.
  melhor voc trocar essa roupa, tomar seu caf e fazer as malas. O barco sai s dez horas.
 Voc disse que eu deveria me sentir envergonhado. Por qu?
 Porque  o que estaria acontecendo se voc tivesse moral  Trish esbravejou.  Traiu Louise! Como pde esquecer que tem uma noiva?
 Voc sabe como  ele retrucou.  Tambm esqueceu seu namorado.
Ela no soube o que responder por um instante. O ditado era certo sobre as mentiras terem pernas curtas.
 Ns no estamos oficialmente comprometidos. Conhecemo-nos h muitos anos e nosso casamento sempre foi encarado como algo que acabaria acontecendo. Seu caso  diferente.
 Mas isso no muda o fato de que voc tambm o esqueceu  Adam insistiu.  Est me acusando, mas eu no a obriguei a nada. Admita!
Trish pestanejou.
 No estou acostumada com homens sedutores.
 Ento eu fui bom?  Adam provocou-a.
Ela engoliu em seco.
 Voc sabia o que estava fazendo! Sabia que era errado!  tornou a acusar, incapaz de admitir que gostara. Que gostara demais.  Como noivo oficial de outra mulher, deveria ter mantido as mos longe de mim!
 Eu sei disso! Mas voc me fez esquec-la!
 Voc foi infiel e a culpa foi minha? Como se atreve?
 Ns dois somos culpados!
 Aposto que diz isso a todas as mulheres!
 S aconteceu uma vez antes. Voc sabe quando.
Por mais que desejasse se controlar, Trish sentia as lgrimas deslizarem por seu rosto. Adam estendeu-lhe um leno, mas no aceitou.
 No se aproxime de mim!  fcil culpar os outros! Meu sangue espanhol, por exemplo!
 No se trata de identificar quem  o culpado, Trish, mas o sentimento que nutrimos um pelo outro. Como devemos cham-lo?
 Traio! Eu tenho um namorado e fiz amor com outro homem. E voc fez amor comigo embora esteja prestes a se casar com outra mulher!
 No me orgulho de minha falta de controle, pode ter certeza! No sinto nenhuma satisfao em ser o outro!
O insulto a fez estremecer. Ela tambm se tornara a outra na noite anterior.
 No deveria ter vindo aqui!
A culpa era dela tanto quanto dele, Trish admitiu consigo mesma. Mas Adam a desapontara. Era um oportunista. Fazia sexo quando e onde sentisse vontade, sem medir as conseqncias.
 Eu no vim com esse propsito.
 O que pretendia, ento?
 Ns queramos nos beijar desde que nos encontramos em Londres. Eu no consegui afastar esse pensamento de minha cabea nem sequer por um minuto. No tive o bom senso de lembrar que no devemos fazer tudo que sentimos vontade. Cometi um erro. Por isso, peo que me perdoe.
 Voc no est entendendo nada! Como pde fazer isso com Louise e comigo?
 Por favor, Trish, existem promessas que s vezes se tornam impossveis de cumprir.
 Ao decidir ficar noivo de Louise, voc fez sua escolha. No aceitamos a poligamia neste pas!
 No.  claro que no...
 O que fez no tem desculpa  ela continuou acusando-o.  O que pretendia? Divertir-se um pouco antes do casamento? Ter um caso com a pequena Trish porque pensou que ela era louca por voc?
 No fale assim!  Adam segurou-a pelos braos e sacudiu-a.  Voc no entendeu!
 Eu entendi muito bem!  Trish se desvencilhou.  Como poderei encar-lo agora? Ou Tim? Ou Louise? Sinto vergonha de mim mesma. Voc estragou tudo! Eu sempre o respeitei! Voc era o homem mais especial que existia sobre a face da Terra!  Ela viu o rosto de Adam empalidecer, mas continuou agredindo-o. Queria magoar tanto quanto fora magoada.  Voc no teve nem sequer a decncia de tomar precaues!
A palidez se intensificou. Ele estendeu a mo para toc-la. No permitiu. Em vez disso, atirou-lhe a escova de cabelos, sentou-se na cama e escondeu o rosto com as mos.
 Trish, acalme-se.
 Saia daqui!
 Ns precisamos conversar.
 Para qu? Eu sei qual era sua inteno. Voc queria me seduzir. Fazer amor comigo e voltar para sua noiva. O que houve no teve nenhum dignificado para voc. Enquanto para mim...
 Diga, Trish  ele pediu, ansioso.
 Ora, no seja convencido. Estou me referindo as conseqncias, no a sua tcnica de seduo. No enxerga, Adam, quantas vidas podero ser afetadas? A sua, a minha, a de Louise, a de Tim, a de minha av? Voc foi totalmente irresponsvel. Assim como eu. Admito minha culpa.  Ela suspirou.  Oh, Deus, como lamento ter te conhecido um dia!
Fez-se um longo silncio. Adam parecia ter se transformado em pedra. No disse nada quando saiu. Seus ombros estavam curvados como se carregasse um imenso fardo.
Ela prestou ateno a cada rudo que ele fazia, trocando de roupa, arrumando a mala, preparando o caf e deixando a casa. Nesse momento, fechou os olhos com fora. Estava sofrendo as conseqncias de seu erro. No havia desculpa para o que tinham feito.
Ainda era cedo demais para pegar o barco. Sem saber o que fazer, Adam largou a bagagem junto ao porto e resolveu caminhar. Estava furioso consigo mesmo.
Quando finalmente se cansou, parou no alto de um rochedo e olhou as ondas fortes que se quebravam contra as pedras, transformando-se em fontes de espuma.
Ali deveria ser Hell Bay. O lugar no poderia ser mais apropriado para seu estado de esprito. Como pudera se comportar daquela forma? Brincara com as foras da natureza e fora castigado. Emoes violentas no podiam ser controladas, assim como a mar. Queria expulsar Trish de sua mente para assumir plenamente sua relao com Louise. Agora, Trish o desprezava e no queria mais v-lo. Assim era o destino. Ele havia atendido seu desejo... quando no queria mais ser atendido.
Deus! Se Trish engravidasse, ele no se perdoaria.
 No!  gritou.
Jurara a si mesmo que nunca se arrependeria de nada, que nunca tornaria a olhar para o passado. E era desse modo que pretendia continuar a viver!

 Aonde foi aquele rapaz simptico?
Trish desligou o fogo e forou um sorriso.
 No suportou a monotonia da ilha. Partiu esta manh.
 Eu o vi da casa de Betty. Ele estava subindo a colina. Parecia triste.
 Ele est com problemas no trabalho  Trish respondeu com um fio de voz.
A av ligou a televiso e se sentou no sof.
 Ele voltar. Daria para voc me preparar uma xcara de ch? Adoro tomar ch enquanto assisto ao meu programa favorito.
Trish deu um beijo na av e desapareceu em direo  cozinha.

As semanas seguintes foram atribuladas com hspedes chegando e partindo. Na nica semana que houve dois cancelamentos simultneos, a av sugeriu que Trish convidasse Petra para passar alguns dias com elas. Sem conseguir encontr-la, deixou dois recados em sua secretria eletrnica que no tiveram retorno. O mais provvel era que Petra estivesse fora de Londres.
O movimento voltou ao normal e Trish estava cuidando da contabilidade e verificando os pagamentos que deveriam ser feitos, quando notou, no calendrio, que no havia marcado no ltimo ms a data de sua menstruao.
Estava atrasada. E ela sempre fora regulada como um relgio. Os nmeros embaciaram diante de seus olhos. Uma sbita tontura a fez largar o lpis. Respirou fundo e procurou se acalmar. No podia estar grvida. No estava sentindo nenhuma diferena em seu corpo. Deveria ser o nervosismo. Afinal, no passava um dia sem que ela chorasse.
Mordeu o lbio. No adiantava tentar se enganar. Sabia que estava esperando um filho de Adam.
 Est se sentindo bem, querida? Parece-me estranha.
 Estou um pouco tonta  Trish respondeu. No podia suportar a preocupao estampada no rosto da av. Tampouco podia lhe contar a verdade.  Acho que tenho trabalhado demais.
A av afagou-lhe os cabelos.
 No se preocupe, filha. Dar tudo certo.  Trish olhou para a av e notou que ela estava examinando o calendrio sobre a mesa. Enrijeceu. Mas a av no deveria ter notado nada, pois apenas lhe deu um abrao e se afastou.
Alguns dias depois, Trish resolveu fazer um teste de gravidez para ter certeza. Suas suspeitas foram confirmadas. No sabia ainda se estava feliz ou no em carregar consigo o filho de Adam, nem o que deveria fazer a respeito. Tim,  claro, tinha de ser informado antes de qualquer outra coisa.
A tarde, depois de cuidar dos inmeros afazeres, decidiu dar um passeio e ordenar suas idias.
No alto de uma colina viu o helicptero se dirigindo ao heliporto de Tresco. As ilhas estavam progredindo, pensou. O helicptero os visitava diariamente, nos ltimos tempos, trazendo correspondncia, jornais e revistas.
Pensou em Adam. Ele tambm havia chegado a Tresco por aquele helicptero. O que estaria fazendo naquele momento? Teria contado a Louise sobre o acontecido? Ou teria simplesmente aliviado sua conscincia com um romntico jantar  luz de velas e uma dzia de rosas vermelhas?
No faria o mesmo com Tim. No seria justo continuar iludindo-o. Naquele mesmo dia contaria a verdade a ele e tambm a sua av. Mas no a Adam.
Pobre criana! Se Adam a amasse e pretendesse se casar com ela, aquela criana viria ao mundo cercada de amor e de carinho dos pais. Do modo como acontecera, no entanto, ela teria apenas uma me.
Trish olhou para o cu e para as flores que cresciam por toda parte. Naquela ilha, sempre pensara ter tudo de que precisava para ser feliz. Agora, sem o homem que amava, sua querida Bryher no mais era o suficiente. Preferiria viver em Londres com Adam do que em sua ilha sem ele.
Subitamente, todos os valores que sempre tivera na mais alta estima no significavam nada. Trocaria sua casa, seu estilo de vida e seus amigos pelo amor de Adam.
Suspirou.
De que adiantava perder seu tempo com aqueles pensamentos? Adam nunca lhe pediria para fazer a escolha. Precisava esquec-lo. Mas sabia que no seria possvel. Ao menos por um longo tempo. Pensar em outro algum talvez a ajudasse. Em seu beb.
Em um gesto que estava se tornando freqente, Trish pousou a mo sobre a barriga. Sorriu pela primeira vez desde a partida de Adam. J estava gostando muito daquela pequena criatura que crescia em seu corpo.
Encontrou Lucy a sua espera, na porta dos fundos, quando voltou para casa. Agitada, ela no conseguiu transmitir a mensagem. Mas antes que tentasse repeti-la, Trish ouviu a av se dirigindo a algum.
  um alvio que voc esteja aqui. Ela no parece mais a mesma.
 Oh, Lucy! Voc queria me avisar que minha amiga Petra havia chegado, no?  Trish deduziu e abraou a ajudante.
Entrou em casa aos gritos.
 Petra! Petra!
No era Petra, mas Adam.
O olhar aturdido voltou-se para a av. Ela estava usando seu melhor chapu, o que costumava colocar em ocasies especiais. Como casamentos.
 Lucy foi me avisar que ele havia chegado  a av contou.  Foi uma surpresa.
Trish mordeu o lbio, desconfiada.
 Eu diria que foi um choque. Pensei que fosse Petra.
 Adam ficar conosco por dez dias  a av continuou.  J o instalei em um dos quartos.
Trish franziu o cenho.
 Voc arriscou em vir para c sem fazer reserva. Tenho estado com a lotao completa.
 Tenho certeza de que sua av conseguiria uma cama extra para mim.
A julgar pela troca de olhares entre Adam e sua av, Trish soube que Adam sabia o que estava dizendo. Assim como ela sabia que seria insuportvel viver sob o mesmo teto que ele por dez dias. To logo surgisse uma oportunidade de conversarem a ss, ela o mandaria embora.
 Venha comigo, rapaz. Quero que tome uma xcara de ch comigo.
 At mais tarde, Lucy  Adam se despediu.
A expresso de Lucy era a de quem se encontrava diante de um deus. E Adam... Ela s o vira uma vez to temo e gentil. Quando fizeram amor.
A mgoa deveria ter ficado estampada em seu rosto, pois sua av murmurou antes de se afastar:
 No negue essa oportunidade a Lucy. Adam prometeu lhe dar umas aulas.
Trish respirou fundo. No, ela no podia negar essa chance  garota. Mas isso no significava que estava de acordo com a presena de Adam em sua casa.
 Com licena. Tenho muito o que fazer.
 Lucy e eu estamos de sada para colher morangos  a av avisou.  Sei que voc e Adam mal podem esperar para ficarem a ss.
Trish interceptou outra troca de olhares. Tinha ganas de brigar com a av. Ela devia estar por trs da volta de Adam. Provavelmente havia lhe contado sobre os choros e a falta de apetite.
 Ns precisamos conversar. Sua av tem razo.
Trish fitou-o. Ele estava lindo, de cala jeans dessa vez, com uma camisa esporte e um suter azul-marinho jogado sobre os ombros.
 Foi uma surpresa v-lo aqui.
 Eu tambm estou surpreso  Adam murmurou, como se ainda estivesse com dvidas sobre sua deciso.
 Por que veio?
 Porque tenho um negcio inacabado para resolver.
Aquele era o momento ideal. Deveria contar a ele sobre a gravidez. Por outro lado, o assunto era importante demais para ser comentado como por acaso.
Ao voltar  realidade, percebeu que havia perdido parte da conversa.
 ...depois que eu lhe contar sobre o que tenho feito.
 Por que eu me interessaria?
 No saber sem me ouvir  Adam declarou.
Para se ocupar, Trish colocou a roupa suja para lavar na mquina. Em seguida, acendeu o forno e comeou a pegar os ingredientes para um bolo.
 Essa atividade toda no poderia ficar para mais tarde?
 No. Tenho uma hspede que nunca est satisfeita. Reclama de tudo. Por mais que eu me desdobre em atenes, ela sempre encontra alguma falha.
 Talvez faa isso de propsitoAdam observou.
Trish parou e refletiu.
 Eu realmente estranhei a reclamao sobre a mancha no colcho. Costumo verificar todos os detalhes  sada de um hspede e no me lembro de ter visto nenhuma mancha.
 Ela poderia ter derramado ch.
Trish fez um movimento afirmativo com a cabea.
 Tambm tenho certeza de que encomendei os jornais e revistas certos e de que Lucy lavou a pia do banheiro. Eu mesma anotei seu pedido de um caf aps o jantar, no de um ch.  Trish olhou para Adam.  Por que acha que ela est se comportando desse jeito?
 Para conseguir uma estadia grtis  Adam respondeu.  No momento de fechar a conta, ela ameaar se queixar  Secretaria de Turismo para amedront-la. Quando voc se desculpar, ela far a sugesto.
Trish mediu o chocolate, a farinha e o acar mecanicamente.
 Voc me deixou preocupada. Essa mulher poder arruinar meus negcios!
 Nunca lhe aconteceu algo assim antes?
 J tive algumas experincias desagradveis, mas nada que se compare a isso.
 Se quiser, posso ajud-la
 No, obrigada  Trish recusou com veemncia.  No precisa fingir que se importa comigo. Eu mesma cuido de meus negcios. Se for obrigada a fechar minha pousada, venderei ovos, verduras, flores e bolos. No faltar nada a mim, a minha av e...
 E?  Adam perguntou com a rapidez de um raio.
Por pouco, Trish no contou sobre o beb.
 E Lucy.
 Lucy?
 Sim. Ela s tem o irmo no mundo e ele trabalha em uma fazenda vizinha que foi colocada  venda.  Trish se deteve.  Estou atrasada com meus afazeres. Daria para voc se ocupar com algo em outro lugar? Com as aulas de Lucy, talvez?
Ele no se afastou de imediato. Ficou olhando enquanto ela batia o bolo e untava a forma como se estivesse atacando um inimigo.
 Voc est tensa.
Ele estava usando aquele tom doce e irresistvel que a deixava com as pernas bambas.
 O que esperava?  retrucou com grosseria.
 Nunca aprendi como me comportar diante de um ex-amante! Estou constrangida ao limite. Preferia que voc no estivesse aqui.
 Eu preciso estar. Tenho um assunto a resolver.
Trish colocou o bolo no forno. Em seguida, abriu um armrio e pegou uma caixa de ferramentas.
 O que ir fazer agora?
 Consertar a cerca.
 A cerca pode ficar para mais tarde.
 No, no pode!  Trish disse entre os dentes.  A cerca  mais importante do que ouvi-lo falar sobre a conversa que teve com Louise quando foi lhe pedir perdo por t-la trado! Se est to aflito por confessar seus pecados, procure um padre!
Trish marchou para o jardim e se ajoelhou para consertar a cerca. Adam no desistiu de atorment-la. Seguiu-a e ficou observando cada um de seus movimentos. Mas, ao menos, manteve-se calado.
O silncio seria completo se no fossem os grasnados das aves e as ondas quebrando nas pedras.
Adam suspirou por fim.
  bom estar aqui outra vez. Eu preferia conversar com voc sem que se ocupasse de outras atividades, mas j que insiste, farei como voc quer. Estive com Louise...
 Estou ocupada. Faa algo til, se insiste em ficar aqui.
Ela lhe entregou um martelo e um prego. Adam largou-os no cho e segurou-a pelos ombros.
 Depois. Agora, oua-me.
 No quero saber sobre voc e Louise! Tenho coisas mais importantes a fazer!
 S estou pedindo alguns minutos de seu tempo.  importante para mim, Trish. Para ns!
 Para ns? Nunca houve nenhum "ns"!
 Por que est gritando?
 No estou gritando!  ela gritou.
Adam tirou as ferramentas das mos de Trish. Em seguida a segurou pelos braos e fitou-a intensamente.
 Pode me ouvir agora?  No havia sada. O calor daquelas mos em seus braos a paralisara.
 Tentei continuar com o noivado  Adam admitiu.  Achei que era meu dever. Mas assim que me vi frente a frente com Louise, convenci-me de que seria impossvel. Ns rompemos h dez dias.
Trish olhou imediatamente para a mo direita de Adam. Ele no estava de aliana.
 Mas... se ela o amava, acabaria perdoando seu erro.
 Oh, sim, mas eu no cometi nenhum erro.
Claro que no. Aventuras deveriam ser normais para Adam. Ele era igual  maioria dos homens. No sabia ser fiel a uma nica mulher.
 Voc  um imoral!
 No pode me condenar por minha franqueza. Se eu realmente amasse Louise, no desejaria outra mulher.
Trish sentiu o estmago dar uma reviravolta. Por que Adam estava lhe contando aquilo?
 Como ela encarou a notcia?
Adam pareceu surpreso.
 Isso a preocupa?
 Lgico!  Trish exclamou, indignada.   horrvel ser rejeitada!
 Confesso que esperava que ela fosse aceitar melhor a situao. Louise sempre foi muito fria e segura de si.
 Voc  seu ponto fraco.
 Voc notou?
 Assim que a vi. Todos ns procuramos esconder nossos pontos vulnerveis.
  a nica maneira de sobrevivermos.
Ele deveria ter pensado alto. Trish sentiu o corao bater mais forte. O que estaria se passando com as emoes de Adam? Ele parecia deprimido.
 Sinto muito que no tenha dado certo.
 No poderia dar. Foi um erro desde o incio.
 Fez o que era certo. Se tivessem se casado, voc a faria infeliz.
 Mas no  nada fcil dizer a algum que se enganou, que no est mais apaixonado.
Trish pensou em Tim com um sentimento de culpa.
  melhor dizer a verdade do que alimentar falsas esperanas.
 No creio que Louise tenha apreciado minha franqueza. Eu tentei lhe dizer que ficaria melhor sem mim, que um dia conheceria um homem que a merecesse. Mas ela custou dar ouvidos  razo.
  a ltima coisa que fazemos quando estamos loucos por algum  Trish murmurou.
 E eu no sei?  Adam respondeu.  J cansei de dizer a mim mesmo que somos opostos, que nossa diferena de idade  muito grande, que vivemos em mundos sem nada em comum, que no quero me deixar governar pela emoo.  Adam balanou a cabea.  Por mais que tente lutar comigo mesmo, no consigo recuperar o controle. Estou obcecado por voc.
Trish ergueu as mos e tocou-o no rosto. Obsesso. Era menos do que ela queria, mais do que esperava.
 No pode sentir-se assim por mim...
 Deus, eu lhe abri meu corao. Eu a desejo desde que a vi pela primeira vez, aos dezesseis anos. Fiquei fascinado por seus cabelos pretos como carvo, por seus olhos azuis como o cu, por seu sorriso radiante.
Trish sentiu o sangue subir s faces.
 Mas voc foi sempre to formal, to gentil...
 Porque era preciso. Eu estava casado e voc era pouco mais do que uma menina. Atribu minha paixo  falta de sexo,  carncia emocional,  necessidade de um relacionamento normal.
A confisso chocou-a. Christine estava doente e o marido s conseguia pensar em sexo.
 Ns nunca nos amamos de verdade  Adam continuou.  Nosso casamento se baseava em afeio. Eu gostava de Christine. Culpava-me por pensar em voc.
 Por que se casou com ela se no a amava? Tinha apenas dezoito anos e a vida pela frente!
 A vida no  to simples como desejaramos, Trish. Eu precisava de Christine e ela precisava de mim. Estava divorciada e tinha uma filha pequena. Ns fomos felizes juntos. Eu jamais a tra. Mas quando conheci voc, comecei a sofrer. Christine percebeu, eu acho. De vez em quando, tentava tocar no assunto.
Trish encarou-o, perplexa. No foram poucas as vezes que Christine lhe elogiara o marido e a abraara dizendo que eles tinham almas gmeas.
 Acho que Christine gostava muito de ns dois.
 Mais do que isso. Ela queria que ns ficssemos juntos. S agora percebi isso. Como me sentia culpado, tentei esquecer voc, Trish, e comecei a pensar que Louise seria uma esposa ideal porque nos dvamos bem no trabalho. Errei novamente. Quando reencontrei voc, senti a paixo reviver. Quero ficar sempre perto de voc. No consigo pensar em mais nada.
Adam abraou-a pela cintura. Aturdida, Trish recuou at suas costas tocarem a cerca.
 O que quer de mim?  murmurou. Adam no falara em amor, apenas em desejo, em obsesso.
 Tudo.
Ela ouviu seu prprio gemido quando Adam estendeu os braos. O que mais queria era atirar-se contra o peito dele e beij-lo. Mas, de repente, no era o bastante. Quanto duraria aquele relacionamento? Adam logo se cansaria dela. Ele mesmo afirmara que tinham pouco em comum.
Os riscos eram grandes demais. Agora havia outro ser em quem pensar. Ele era sua responsabilidade.
 Desejo no basta.
 Basta para mim
 Volpia no  uma base concreta para um relacionamento.
  mais do que volpia. Sempre foi. Voc tambm me quer. No negue  Adam insistiu.
 No.
 Penso em voc o tempo todo, Trish.
 Mas, Adam, ns somos diferentes.
 Tente convencer meu corpo e minha mente disso. Estou precisando de uma injeo de bom senso.  Ele fitou-a.  Voc  to linda...
Trish ficou fascinada com aquele olhar. Quando Adam deu mais um passo em sua direo, no conseguiu se mover.
  loucura!  sussurrou. Amava Adam. Ele estava livre. Talvez houvesse uma chance para eles e para o beb.
 Cansei de ser sensato, de lutar contra minha conscincia que insistia que voc seria mais feliz ao lado de um homem de sua idade.
 A diferena de idade nunca me importou. Mas eu tentava me convencer de que voc ficaria melhor ao lado de uma mulher sofisticada.
 Eu s quero voc! No ouvirei suas objees. Se no puder t-la em meus braos, toc-la e lhe fazer amor, no terei paz.
De repente, Adam apoiou ambas as mos na cerca de forma a impedi-la de fugir.
 O que est fazendo?  perguntou, com a respirao suspensa.
 Um teste.
 Um teste?
 Para saber se a cerca foi bem consertada. Adam havia mudado. No era mais o homem que conhecera. Ele estava se expondo como era. E estava tentando diverti-la.
Assustada e feliz ao mesmo tempo, Trish mal podia esperar para sentir os lbios dele sobre os seus.
 Quero deit-la nessa grama  Adam sussurrou.  Quero sentir a maciez de seus cabelos em minhas mos, esconder meu rosto entre seu pescoo e seus ombros e sentir seu perfume. Quero afundar minha boca em seus seios e saborear cada mamilo com minha lngua. Quero sentir sua pele e moldar seu corpo ao meu.
A voz foi se tornando rouca. A respirao entrecortada.
Trish tentou falar, mas sua voz se recusou a sair. Ele no a havia nem sequer tocado e ela j estava trmula de excitao.
 No permitirei que me rejeite outra vez  Adam continuou.  Nada mais me importa. No posso ficar longe de voc. Voc no sai de meu pensamento nem sequer por um instante.
Ela estava perdida. Queria que Adam lhe fizesse tudo o que estava prometendo. Seu corpo ansiava por ele. Desejava-o tanto que pensou que fosse desmaiar. No entanto, no momento que Adam entreabriu os lbios e segurou-lhe o rosto para beij-la, afastou-se.
 No!  Estava assustada demais. Tinha medo de se entregar ao amor e de ser ferida.  Voc no tem o direito de voltar aqui e pensar que poderia continuar o que comeou. Como posso ter certeza de que seu rompimento com Louise  definitivo?
 Trish, Trish. O que preciso fazer para convenc-la?
 No sei. Quero acreditar em voc, mas...
Ela estava travando uma batalha com sua conscincia. Queria contar a Adam sobre o beb e assegurar o relacionamento. Ao mesmo tempo, receava cair e atir-lo em uma armadilha onde a falta de amor logo traria arrependimento.
Adam estava imvel a sua frente. Seus lbios estavam apertados. Ele sempre se comportava daquele modo quando se sentia contrariado.
Apesar de saber que poderia estar jogando fora uma chance em um milho de ser feliz, Trish no voltou atrs em sua deciso.
No esperava, contudo, por aquele tipo de reao por parte de Adam.
 Eu farei com que sinta por mim a mesma obsesso que sinto por voc. Juro. Agora, se me d licena, est na hora da aula de Lucy.

 
CAPITULO V

Enquanto cobria o bolo com um creme de chocolate, Trish se perguntava o que Adam estaria dizendo a Lucy para que ela risse tanto.
Enciumada, verificava a hora cada instante. Foi preciso o telefone tocar no quarto dele para a aula ser encerrada aps sessenta e nove minutos.
Bastou olhar para Lucy para saber que ela havia ficado fascinada por Adam.
 Tivemos um timo comeo  declarou Adam com satisfao.
 Parabns  Trish murmurou e virou-se para a pia.
Lucy saiu imediatamente, muito corada.
 Voc poderia ter demonstrado algum interesse  Adam censurou-a.  Ela estava empolgada.
 Disso eu no tenho dvida  Trish respondeu, mal-humorada.
Adam colocou ambas as mos nos quadris.
 Ei! O que foi que eu fiz agora?
 Voc flertou com Lucy! Eu ouvi risinhos a aula toda! Voc fez de propsito para me despertar cime!
Adam segurou-a pelos braos e a fez encar-lo.
 Eu no usaria esse tipo de artimanha! O que pensa que sou? Voc mesma no acreditava que Lucy seria capaz de me enfrentar de to tmida que . Se eu no conseguisse faz-la relaxar, no adiantaria tentar ensin-la a falar. Por causa disso, coloquei algumas piadas no computador e sugeri que nos comunicssemos pela tela. Ela ficou radiante. Foi a primeira vez em sua vida que manteve uma conversao normal!
 Vocs... vocs no paravam de rir...  Trish retrucou.
 Sim, ns rimos  Adam confirmou, surpreso com a reao de Trish.  No sabe o que significa sentir-se normal depois de passar a vida sendo objeto de curiosidade alheia.
Trish deu-se conta finalmente de que sua obsesso por Adam a estava transformando em uma pessoa injusta.
 Sinto muito. Foi o que voc disse sobre sua determinao de me fazer desej-lo...
 H mil maneiras de lhe provar que minhas intenes so srias a seu respeito, sem que eu tenha de usar Lucy ou qualquer outra pessoa.
 Por favor, perdoe-me. Fui uma tola  Trish murmurou.  Sou-lhe grata por estar ajudando Lucy. Voc fez mais por ela em uma hora do que eu durante meses. Gosto da garota. Estou arrependida de tudo que disse, de tudo que pensei.
 Quando aprender a confiar em mim, Trish?
Trish baixou a cabea e soluou. No mesmo instante, Adam abraou-a e a fez deitar a cabea em seu peito.
 No chore.  Ele beijou-lhe os cabelos.  Detesto v-la chorar.
Ela ergueu o rosto e Adam se ps a beij-la no rosto, nas plpebras, nos lbios. Emocionada com o carinho que estava recebendo, Trish correspondeu ao abrao e tomou a iniciativa de beij-lo.
Foi um beijo intenso mas breve. Adam empurrou-a delicadamente.
 Eu no deveria estar aqui, minha querida. Recebi um telefonema dizendo que havia chegado algo para mim pelo correio e que era urgente. Voltarei o mais rpido que puder.
Trish sorriu. Adam a chamara de sua querida. Sabia o quanto era difcil para ele demonstrar suas emoes. Fora um grande progresso cham-la daquele modo. Talvez ainda no estivesse em condies de falar em amor. Poderia ser apenas uma questo de tempo.
Nesse dia, ela lhe contaria sobre o beb.
Suas fantasias foram interrompidas pelo barulho de uma das mquinas de Adam. Ela subiu para o quarto. Estava tudo em ordem. Era apenas uma mensagem que chegava pelo fax.
Trish estava se dirigindo  porta quando algo lhe chamou a ateno. Virou-se e leu a assinatura. Louise.
O telefone tocou em seguida.
 Al?
 E Louise quem est falando. Estou ligando para me certificar de que Adam recebeu o fax e para saber se posso mandar imprimir os convites para nosso casamento.
Trish sentou-se na cama e fechou os olhos.
 Voc e Adam iro se casar?
 Claro. Voc esteve em nosso noivado. Ou esqueceu?
 Pensei que vocs tivessem rompido  Trish respondeu com um fio de voz.
  No sei de que voc est falando.
Sem foras para continuar ouvindo, Trish desligou. Passaram-se vrios minutos at que se sentisse em condies de se mover.
Suas pernas pesavam como chumbo quando se encaminhou at o fax e leu a mensagem.
Querido, o que acha do texto e dos sinos em alto relevo? Divinos, no? D-me seu ok e farei o resto. Adorei Paris. Mal posso esperar por sua volta. Obrigada pelas rosas. Trinta! Voc foi deliciosamente extravagante. Te amo. Louise.
Adam mentira para ela. Levara-a ao pice da felicidade para agora empurr-la ao mais fundo dos abismos. Como podia confiar em um homem assim? Jamais lhe contaria sobre o beb. Ele no merecia saber.
Puxou o papel, dobrou-o, e guardou-o no bolso da cala para entreg-lo em mos.
 No havia nada  Adam declarou, intrigado, quando entrou na cozinha.  Eu insisti e disseram que no tinham nenhuma encomenda para mim.
 Estranho, no?  Trish observou, grata ao destino pela coincidncia. Se o engano no tivesse acontecido, ela nunca saberia que Adam e Louise continuavam noivos.
 Sim. E no poderia ter acontecido em pior hora. Que acha de retomarmos o que estvamos fazendo?
No houve tempo. Um barulho os assustou. Trish aguou os ouvidos. Adam interrompeu seus passos.
 Minha av!
Trish ps-se a correr para a cabana ao lado e Adam a seguiu. Pararam, atnitos, ao darem com Lucy em pnico.
 O que houve?  Adam perguntou.
 Ela est tentando pedir socorro. Meu Deus, o que ser que aconteceu com minha av?
Dessa vez, Adam correu antes. Quando Trish o alcanou, ele j estava ajoelhado junto a sua av que se encontrava estendida no cho da cozinha.
 Vov!
 Eu estou bem. Parem de fazer tanto estardalhao!  resmungou a sra. Hicks.  Ai! Solte meu brao!
 No, ela no est bem, Trish  Adam afirmou.  H uma fratura nesse brao. Precisamos lev-la a um pronto-socorro.
 Para qu? Temos muitos remdios em casa. Os mtodos antigos de tratamento so cem vezes melhores do que os modernos.
Trish concordava com a av enquanto Adam franzia o cenho. Aquele era mais um exemplo do enorme abismo que existia entre eles. Alm de seguirem estilos de vida diferentes, acreditavam em coisas diferentes.
 S quero que me ajudem a levantar daqui e me sentem em uma cadeira. A culpa foi minha. No notei que havia deixado cair uns morangos.
Escorreguei. Daqui a pouco irei dormir e logo estarei boa. De repente, fiquei com sono.
 A senhora no pode dormir!  Adam olhou significativamente para Trish.
Trish entendeu.
 Goste ou no, ter de ir ao hospital, vov.  Trish consultou seu relgio de pulso.  O barco no estar l.
 O que faremos?Adam perguntou, preocupado.
 Terei de chamar Joe Slater. Ele possui uma pequena lancha ancorada na baa vizinha. Ele nos levar a St. Mary.
Adam recuperou o controle.
 Lucy, por favor, pegue alguns cobertores para a sra. Hicks. Depois suba at meu quarto e o de Trish e pegue casacos para ns. Estar frio quando voltarmos do hospital. Voc consegue preparar sozinha o jantar para a sra. Varsher?
Lucy respondeu que sim com a cabea. Nesse nterim, Trish estava terminando de explicar a Joe Slater sobre o acidente. Quando desligou, ficou com pena de Adam. Ele estava plido. Sabia que tinha horror a hospitais. Deveria estar se lembrando de Christine.
 Adam, meu vizinho j foi preparar o barco. Voc no precisa ir.
 Eu quero ir. Voc precisar de algum que carregue sua av. Alm disso, quero lhe fazer companhia.  Adam apertou-lhe a mo e tentou sorrir.  Ela ficar bem. No se preocupe.
Adam reconheceu que, apesar de seus conhecimentos em pilotar barcos, no tinha percia suficiente para navegar pelas guas perigosas das ilhas Scilly. Dessa forma, deu sua contribuio apenas aconchegando a av de Trish de encontro ao peito e mantendo-a acordada com piadas que fizeram rir at mesmo o reservado Joe.
Enquanto navegavam, Adam decidiu fazer u curso de aperfeioamento sobre nutica e sobre aquelas guas em especial. No era de sua natureza ficar de braos cruzados em situaes de emergncia como aquela.
Durante o percurso, ele notou a fria rigidez de Trish. Ela s se dirigia  av. Por que fora se envolver com uma mulher to complicada?
 Adam?
Ele pestanejou ao ser chamado de volta  realidade.
 Voc trouxe seu celular? Sei o nmero do hospital de cabea. Poderamos avis-los.

Adam sentiu a pulsao acelerar ao avistar a ambulncia  espera. Se tivesse escolha, ficaria esperando no barco. A imagem de Sam lhe voltou  lembrana.
 Adam, voc est bem?  Trish perguntou baixinho.
Um pouco de dor de cabea apenas  ele mentiu.
Aps um momento de hesitao, Trish comeou a massagear-lhe as tmporas. Ele concentrou-se em seus dedos e a imagem desapareceu.
O caso estava piorando. Trish estava evocando situaes que ele preferia deixar enterradas. No podia viver sem ela. Ao mesmo tempo, temia viver com ela. Sua falta de confiana o abalava.
Talvez a sra. Hicks estivesse enganada sobre os sentimentos da neta por ele. Ele a queria tanto que poderia estar se recusando a enxergar a verdade. Mas e se a sra. Hicks estivesse certa em sua suposio de que Trish estava grvida?
Desejou que a velha senhora nunca tivesse telefonado e que a gravidez de Trish fosse um engano. Assim ele poderia ir embora e deixar suas emoes intactas. As entregas apaixonadas de Trish seguidas de total rejeio estavam abalando-o por demais, desestruturando sua vida sempre organizada.
 Chegamos.
A voz preocupada de Trish devolveu-o ao presente. Apertou-lhe a mo para lhe dar coragem e seguiu com as mulheres e com Joe.
 Aproveitarei para visitar um amigo  disse Joe.  Ele mora perto do hospital. Quando estiverem prontos para voltarmos, liguem para mim.  Ele deu um nmero e Adam anotou-o em um carto que guardou em sua carteira.
Enquanto a sra. Hicks era levada  sala de radiografias, Trish sentou-se em um sof, na sala de espera. Parecia exausta. Adam sentou-se ao lado dela e abraou-a pelo ombro.
 No, por favor  ela murmurou.
 Deixe-me cuidar de voc  Adam pediu.  Quero proteg-la de tudo que  triste e ruim.
Ela olhou para ele com as faces molhadas de lgrimas. Ele no resistiu e beijou-a no rosto. Vira seu irmo chorar da mesma forma e no conseguira confort-lo. A emoo embargara-lhe a voz, como estava acontecendo naquele momento. No estava suportando ver tanta tristeza.
 No chore  implorou.  Ela ficar boa.
 Eu a amo tanto. Ela foi maravilhosa comigo. Eu s tenho minha av no mundo.
 No  Adam a contradisse.  Voc tambm tem a mim. Voc me ter sempre que quiser.
Ela o fitou, confusa. Adam fez com que deitasse a cabea em seu ombro.
 Levei seis anos para compreender. No espero que voc enfrente todos os problemas que envolvem nosso relacionamento de um minuto para outro. Sei que me deseja.  um bom comeo.
 Vov depende de mim. Nunca a deixarei.
Adam a segurou pelo queixo.
 Nem eu.
 Voc tem sido bom para ela  Trish murmurou. Emoes contraditrias a inundavam.  Estou feliz que esteja aqui.
Aquelas palavras o embalaram durante toda a viagem de volta. A sra. Hicks teria de pernoitar no hospital por precauo segundo o mdico. Exausta, Trish adormecera na cabine.
Trish e Adam estavam no embarcadouro, acenando para as duas crianas que se afastavam no barco para irem  escola. Eram seus filhos.
Trish acordou, sobressaltada. Em alguns anos, essas crianas estariam descendo do carro luxuoso de Adam para entrarem no colgio. Em seguida, ele iria trabalhar em seu escritrio com Louise e, mais tarde, receberia os amigos em casa para um coquetel.
Seis horas. Levantou-se e foi ao banheiro. Estava escovando os dentes quando se lembrou dos eventos do dia anterior. Olhou para baixo e pestanejou ao notar que estava de pijama. Como? Durante a travessia no barco de Joe sentira um sono irresistvel. No se lembrava de mais nada depois disso.
Vestiu uma roupa, preparou o desjejum, arrumou as mesas, mas no conseguia parar de pensar e de sentir arrepios. Adam a despira!
As oito horas, incapaz de esperar mais, ligou para o hospital.
 Ela est bem, mas reclama muito de nossos mtodos. Insiste em tomar seus remdios caseiros.
Trish deu uma risadinha. Podia imaginar o trabalho que sua av estava dando aos mdicos e s enfermeiras!
 Posso ir busc-la?
 Amanh talvez  disse a enfermeira.
Adam entrou naquele momento.
 Diga a ela que iremos visit-la  tarde, por favor. E transmita-lhe nosso carinho.
 Fico contente que tenha me includo  Adam murmurou.
Trish no havia se dado conta do que falara. De repente, sentiu-se constrangida.
 Minha av est bem.
 timo.
Trish estava corada. Adam estava pensando em lhe perguntar se havia acontecido algo, quando ela tornou a fit-lo.
 Voc me despiu?
 Eu a levei para a cama em meus braos  ele respondeu com um sorriso que fez o corao de Trish bater mais depressa.  Lucy fez o resto.
Ele estava muito diferente aquela manh. Usava jeans e camiseta pretos. No parecia o mesmo.
 Preparei uma surpresa para voc  ele continuou.  A respeito de sua exigente hspede. Por acaso ela  tcnica de televiso?
 No que eu saiba. Por qu?
 Eu a vi mexendo na parte interna do aparelho de seu quarto.
Trish franziu o cenho.
 Voc acha...
 Tenho certeza.
A mulher desceu naquele momento para tomar o caf e Adam a saudou em italiano.
 Buon giorno!
 Bom dia, sra. Varsher  Trish cumprimentou.
 No  um bom dia  retrucou a mulher com maus modos.
 Momento, cara.  Adam se dirigiu  hspede aos moldes de um italiano machista em defesa de sua mulher.  Soube que no tem se mostrado satisfeita...
 Certamente que no!  declarou a mulher.  Esta manh...
 Aconteceu mais algum problema?  Adam interrompeu-a.
  A televiso quebrou. Nada funciona direito neste lugar! No pretendo desembolsar meu dinheiro por um servio pssimo e acomodaes e higiene que deixam a desejar.
 Signora  Adam interveio  est vendo esta caixa de cereais? H um bilhete dentro em seu nome.
 medida que lia o papel, a mulher ficava cada vez mais vermelha. Nele, Adam mencionava o episdio da televiso.
 Vi o que a senhora fez. Foi muito feio. Minha mulher no gostou. Eu no gostei. Por que no acerta suas contas e procura outro hotel?
 No posso pagar! Meu talo de cheques est guardado na frasqueira e a fechadura emperrou.
 Onde ela est? Valentino Capelli a abrir com as prprias mos!  Adam se vangloriou ao mesmo tempo que exibia os poderosos bceps.
Trish se afastou em direo  cozinha antes que estragasse a cena, explodindo em riso.
Alguns minutos depois, ela espiou da porta e viu a figura alta e imponente de Adam bloqueando a sada. A sra. Varsher deveria estar na frente dele. No dava para ver. Espiou, ento, pela janela e sua viso foi perfeita. A mulher estava indo embora, com toda bagagem.
Adam veio a seu encontro com um cheque nas pontas dos dedos e um sorriso nos lbios.
 Satisfeita?
 Oh, Valentino Capelli! Como conseguiu se manter srio at o fim? Eu no agentei!
 Porque o caso era srio, doura. Aquela mulher estava lhe causando problemas. Ningum judia de voc e sobrevive!
Ele parecia to sincero, era to charmoso e divertido. Como gostaria de acreditar em tudo que dizia.
 Obrigada. Voc foi incrvel. Adam abraou-a pela cintura.
 No h mais nenhum hspede agora, Trish. Estamos sozinhos, voc e eu.
 Por pouco tempo. Novos hspedes esto por chegar. Preciso ganhar minha vida.
 Enquanto eles no chegam, podemos aproveitar, cara. Onde paramos?
 No, Adam!  ela protestou em vo, pois Adam ps-se a beij-la e ela no teve foras para rejeit-lo. Por alguns minutos. Depois empurrou-o.  No, Adam. Preciso ver Tim.
 Por qu?
 Preciso lhe falar sobre ns.
 Voc no o ama  Adam resmungou. Cime, Trish pensou. Ele me deseja e quer que eu seja s dele. Isso me assusta. Ele quer me dominar, destruir minha independncia.
 Voc est demorando para se decidir. Acho que preciso lembr-la de algo...
Os beijos se espalharam por toda parte: lbios, faces, pescoo, ombros, doces e voluptuosos, gerando um intenso prazer e aceitao de um prolongamento das carcias  medida que ele comeava a despi-la.
 Diga que no o ama!  Adam exigiu.
 Eu no o amo. Por favor, Adam. Isto no  justo.
Fitaram-se nos olhos. Os de Adam estavam escuros como ela nunca vira antes. De repente, fechou-os e inclinou a cabea para lhe sugar os seios.
Trish estremeceu de paixo.
Adam no conseguia parar. Sabia que no estava se portando como planejara. Sua inteno era cortej-la, conquist-la, mostrar que seus sentimentos iam alm do sexo, sem nunca perder o controle. Porm, como das outras vezes, bastara toc-la, beij-la e pensar em lhe fazer amor, para perder a cabea.
Estava quente demais para usar roupas. Ele tirou o vestido de Trish, sua cala e sua camisa. Sentia medo, mas estava vivo como nunca.
Ela era linda. Sua pele macia o deixava descontrolado. E sua boca! Ela o torturava com seus beijos. No adiantava tentar negar. Enquanto no fizessem amor, no ficariam satisfeitos. No dava para saber se era apenas sexo ou se havia sentimentos mais profundos envolvidos. Mas ele tinha uma forte desconfiana de que seria mais do que um ato puramente fsico. E era por isso que deveria lutar consigo mesmo com mais determinao e ir embora.
Essa necessidade por Trish era um sinal alarmante de sua fraqueza. Sempre exercera total controle sobre sua vida. Trish era uma ameaa. No podiam continuar!
 Adam, no podemos!  Trish murmurou.
Ele interrompeu o beijo, inebriado pelo perfume de Trish. Encarou-a. Sua respirao estava ofegante.
 Eu... preciso ver Tim.
 Claro que sim  ele concordou, subitamente zangado como nunca se sentira.  Este  um bom momento.  Ele se inclinou, pegou o vestido no cho e devolveu-o.
 No posso sair agora  Trish retrucou.  Tenho muito o que fazer. O desjejum...
 O mundo no acabar se voc deixar o servio para mais tarde  Adam protestou, trmulo de frustrao. Aquilo era mais do que necessidade fsica. Era algo que poderia abalar toda sua vida, cuidadosamente construda.
 No tenho como sair da ilha antes da hora do almoo.
 Maldito lugar!  Adam esbravejou.  No h liberdade aqui ao contrrio do que as pessoas imaginam. E como estar em uma priso!
Trish afastou-se, fria como gelo. Ele no tentou impedi-la. Precisava refletir. Esfriar a cabea. Quando voltara  ilha, ciente da tristeza que se apoderara de Trish aps sua partida, sentia-se brio de felicidade. No imaginara que fosse se sentir to ameaado pela intensidade de suas emoes.

 
CAPTULO VI

Uma lgrima deslizou pelo rosto de Trish e ela a enxugou com raiva. Essa determinao de Adam em seduzi-la estava matando-a! Ele era um conquistador perigoso, sem escrpulos e sem moral.
E detestava Bryher.
Ele precisava ir embora o quanto antes. No entanto, por mais que a razo lhe sugerisse esse caminho, seu corpo se recusava a trilh-lo. Muitas vezes, quando se dava conta, havia parado de lavar a loua para se perder em recordaes.
Foi assim que Adam a surpreendeu ao voltar do passeio. Parada, com os olhos dilatados pelas imagens sexuais que viam.
O sol incidia sobre os cabelos negros de Adam fazendo-os brilharem. As feies estavam crispadas, os punhos cerrados. Ela sabia que era a causadora daquela tenso. Isso no lhe dava prazer. Estava se tornando cada vez mais difcil no correr para os braos de Adam.
Para ocupar as mos, alisou a toalha sobre a mesa.
 O barco estar pronto para zarpar em meia hora  informou-o.
 Mas voc no disse...
 Quando a mar est baixa, o embarcadouro no funciona. Usamos, ento, o Anneka's Quay.
 Eu gostaria de ir com voc  Adam murmurou.  No para me intrometer em sua conversa com seu namorado,  claro, mas para visitar sua av.
 No tenho nenhum direito sobre voc.  livre para ir aonde quiser. Vou me arrumar. Depois lhe mostrarei o local onde o barco est atracado.
Adam sentou-se na proa do Faldore. Sozinho, ficou olhando para o mar, embora seus pensamentos no permitissem que o admirasse.
Perturbada com o silncio, Trish viajou na cabine do piloto.
 O planto turstico fica ali.  Trish apontou para uma construo quando chegaram a St. Mary.
 Eles lhe daro um mapa e explicaes sobre a localizao do hospital. Poderemos nos encontrar l, se voc quiser.  Ela hesitou.  Vov ficar contente em v-lo. Tim trabalha na loja de presentes Jumping Jack. Eu agradeceria se voc no me seguisse.
 No faria isso, Trish. No  de meu feitio.
A loja estava vazia no momento que Trish entrou.
Ela esperou alguns instantes e tocou a sineta sobre o balco. Tim surgiu da sala dos fundos com os cabelos despenteados e com um leno sobre os lbios. Antes que Trish tivesse chance de cumpriment-lo, a jovem, que ele contratara para ajud-lo na temporada de vero, surgiu da mesma sala, com a boca manchada de batom.
 Oi  Tim cumprimentou, vermelho at a raiz dos cabelos.
Trish ficou muda ao presenciar o flagrante de infidelidade. Mas o que poderia dizer? Ela tambm no fora infiel? Com um suspiro, encaminhou-se para Tim e lhe estendeu a mo.
A auxiliar franziu o cenho.
 Est tudo bem, Tim. O que sentimos um pelo outro nunca foi amor.
 No diga isso!
 Pense, Tim. Era amizade. Ns gostamos um do outro, mas nunca nos importamos em viver longe, em nos vermos apenas esporadicamente.
 Talvez voc esteja certa. H outro?  ele perguntou aps uma ligeira hesitao.
 Algum que diz que me quer. No sei.
 Felicidades, Trish.
 Para voc tambm.
 Cuide-se  Tim se despediu com um sorriso e olhou para a jovem a seu lado que se apressou a abra-lo pela cintura.
Na calada, Trish sorriu consigo mesma. Fora muito mais fcil do que esperava. Por outro lado, estava chocada com o comportamento de Tim. Nunca lhe passara pela cabea que Tim fosse decepcion-la. Ele sempre lhe parecera firme, honesto e confivel.
E ele deveria ter pensado o mesmo a seu respeito!
Enquanto caminhava pelas ruas da cidade e trocava algumas palavras com seus velhos amigos, Trish pensou na mudana que se operara em sua vida nos ltimos tempos. No era mais a mesma pessoa. Adam lhe ensinara sobre o sexo e agora ela ansiava por estar junto a ele, a ouvir sua voz, a sentir os prazeres que s ele lhe podia proporcionar.

Quando voltaram para a ilha, Trish lhe mostrou o fax de Louise. A medida que lia, Adam mostrava-se cada vez mais perplexo.
 Ela mentiu! Voc no pode acreditar nesse absurdo!
Como Trish no respondeu, Adam segurou-a pelos braos.
 Quando foi que ela enviou isso?
 Voc havia sado para buscar uma encomenda.
 Uma encomenda que no pedi e que nunca chegou. Foi uma armao! Ela telefonou e mudou a voz para me tirar daqui. Certa de que eu havia sado para buscar a tal encomenda urgente, enviou esse fax para que voc o recebesse. No percebe que Louise fez isso por vingana? Eu lhe confessei o que sinto por voc. No h mais nada entre mim e Louise.  voc que eu quero, Trish. No se convenceu ainda?
.A indignao de Adam era to grande que sua voz tremia. Ele tirou o fone do gancho e discou.
 Louise? Desista! Nenhum truque sujo me afastar de Trish. Vou passar a ligao para ela. Ou voc lhe conta a verdade ou se arrepender at o ltimo fio de cabelo. Depois que eu process-la, no conseguir nenhum trabalho na cidade.
Adam estendeu o fone a Trish. No havia necessidade de explicaes. Trish atendeu. Louise estava chorando.
 Por favor, no chore.
 No quer que eu chore, sua pequena ordinria? Voc o roubou! Ele era meu!
No havia mais dvida. Adam dissera a verdade. O relacionamento estava acabado.
Adam parecia exausto quando Trish, sem parar de fit-lo, desligou.
 Temos muito o que conversar, Trish. No agora, porm. Preciso ficar sozinho e colocar meus pensamentos em ordem.  noite, gostaria de lev-la para jantar fora.
Depois que Adam saiu do quarto, Trish sentiu-se invadir por um profundo alvio. Adam estava livre realmente. Por outro lado, continuavam sendo incompatveis. Ele no suportaria viver em Bryher. Morreria de tdio. No prazo de dois meses, o prazer estaria transformado em brigas. E o passo seguinte seria a separao. Adam a deixaria assim como seu pai deixara sua me.
E ela no teria foras para continuar vivendo.
Mas o queria tanto que no conseguia mais raciocinar. Bastava Adam olhar para ela, com aquele seu jeito sensual, para conseguir o que queria. A menos que... No. No faria isso por mais que seu corpo clamasse por essa alternativa.
Seduza-o, uma voz insistia em lhe dizer. Se  apenas sexo que ele quer, voc se livrar dele em uma ou duas semanas e ter essa fabulosa experincia para recordar.
Vestiu um vestido de algodo branco, justo e decotado. Por mais que Adam fingisse prestar ateno ao prato de camares ao curry e  vista da janela do hotel, Trish o surpreendeu com os olhos em seus seios mais de uma vez.
 Voc est calado  observou. Ele deu um sorriso.
 Assuntos de trabalho  mentiu.
 Nada o prende aqui  Trish murmurou.  Est pensando em partir amanh?
 Voc me prende aqui, Trish. Lembra-se de que lhe disse que vim para terminar algo que deixei inacabado?
 Quando isso acontecer?
 Quando eu conseguir o que me propus.
Adam sentiu que mergulhava no fundo daqueles olhos azuis. Trish estava diferente aquela noite. Seu sorriso, talvez. Parecia provocante, sensual... Pensou em lev-la para a cama e resolver seu problema. Sua conscincia, porm, o incitava a agir de outro modo. Precisava aprender a confiar em Trish assim como ela precisava aprender a confiar nele. Antes que isso acontecesse, no conseguiriam se relacionar com equilbrio.
 O jantar foi maravilhoso, Adam. Obrigada pelo convite.
Ela se levantou em seguida para ir ao toalete. Adam acompanhou-a com os olhos. Muitos outros homens fizeram o mesmo. Ele se sentiu orgulhoso.
Era um tolo. Se tornasse a fazer amor com Trish, estaria perdido para sempre. No podia arriscar seus sentimentos. Enquanto no tivesse certeza de que Trish sentia o mesmo por ele, no haveria mais sexo.
O caf e os bombons foram servidos no terrao que dava vista para o lago.
 Logo poderemos ver o pr-do-sol  Trish murmurou.
 timo!  Adam exclamou com forado entusiasmo.
 Veja aqueles pssaros. Aposto que voaro at a superfcie do lago para tentar apanharem alguns peixes.
Enquanto Trish se distraa com as aves, Adam aproveitou para admir-la. Poderia fazer isso at o fim de seus dias sem se cansar. Adorava seu sorriso gentil, seu modo inquieto de criana, o cacheado de seus cabelos, a cor de mel de sua pele.
 Voc no est olhando!  Trish protestou.  No est interessado?
Normalmente ele estaria, mas no com a concorrncia daquela noite!
 Desculpe. Meus pensamentos estavam em outro lugar.
Ela sorriu. Era isso que ele mais apreciava em Trish. Ela respeitava a vontade dos outros e no se ofendia sem que houvesse um motivo justo.
 O que houve?  Trish perguntou, de repente.  Voc est estranho. Em que estava pensando?
Ele pestanejou.
 Que voc  a criatura mais linda...  Ele pretendia dizer do mundo, mas se conteve  neste restaurante.
Trish olhou ao redor. Com exceo de duas senhoras idosas em uma mesa de canto, ela era a nica mulher no recinto. As palavras de Adam no lhe pareceram muito lisonjeiras. Mas sorriu assim mesmo. Ele notou o deslize nesse momento.
 Vamos para casa antes que eu cometa outra gafe?  Adam perguntou.  Ou voc gostaria de pedir mais alguma coisa?
 Podemos ir para casa  Trish respondeu  mas, como penitncia, ter de fazer muitos elogios durante o trajeto  brincou.
Quando saram do restaurante, o tempo havia refrescado. Trish esfregou os braos.
 No trouxe algo para aquec-la?
 Voc  Trish murmurou.
Adam sentiu um n na garganta. No instante seguinte, comeou a tirar a jaqueta, mas Trish o impediu de continuar. Em vez disso, fez com que a abraasse pelos ombros.
Como resistir?
Assistiram ao pr-do-sol de mos dadas.
Seria natural beijarem-se quando o ltimo raio desaparecesse no mar, agora no mais azul, mas vermelho. Natural que o beijo fosse suave, gentil, uma expresso de amor total. Ele queria que aquele momento durasse para sempre.
No havia pressa. Eles tinham todo o tempo do mundo. Beijou-a no rosto, nos olhos e mais uma vez nos lbios que o enlouqueciam desde a primeira vez que os vira.
No se permitiria nenhum arrebatamento como no passado. Estava excitado, admitia, mas era dono de uma vontade frrea e no se esqueceria disso nem sequer por um segundo. Estava determinado a conquistar a confiana e o amor de Trish sem correr o risco de se tornar seu prisioneiro.
 Acho que est na hora de voltarmos  Adam murmurou assim que os beijos comearam a lhe parecer perigosos.
O modo como Trish o fitou o fez cerrar os punhos. Seus olhos brilhavam como diamantes. Ela havia entendido mal a sugesto. Esperava que ele fosse lev-la para a cama. Queria isso.
Para se proteger, Adam fez questo de conversar durante o caminho de volta, apesar de seguirem abraados.
 Terei de ir a Londres amanh. Negcios.
Ela enrijeceu.
 Impossvel. Amanh  domingo. No h barcos nesse dia.
 Nenhum?
 Nenhum. Se esperava ler o jornal, ficar desapontado. Eles chegam apenas na segunda-feira. Surgiu algum problema?
 No. Posso esperar at segunda -feira. Quanto ao jornal, acho que sobreviverei sem ele.
Trish se afastou, visivelmente contrariada.
 Sente falta da agitao e do conforto da cidade, no? Mesmo Truro  pequena demais para seu gosto. Voc quis se mudar para Londres...
 Eu mudei, doura, para fugir de lembranas.  Ele parou e a fez encar-lo.  De voc, Trish. Foi por sua causa que fui embora. No sei como seria minha vida em um lugar como este, mas estou disposto a tentar. Voc pode pensar que no vivo sem o ar poludo e o trnsito maluco de Londres, mas no so essas as razes. Preciso desfazer minha sociedade com Louise. No se trata de nenhum bicho-de-sete-cabeas, mas h trmites legais a serem considerados.
 Eu sempre pensei...  Trish murmurou como se no tivesse ouvido a ltima parte da explicao.
 Voc foi embora por minha causa?
Adam segurou-lhe o rosto e fitou-a com adorao.
 Faamos um trato. Eu lhe conto a meu respeito e voc me conta por que ficou to contrariada quando lhe disse que queria deixar a ilha.
 Negcio fechado  ela respondeu com um sorriso.
Adam sorriu e beijou-lhe a ponta do nariz. Estavam fazendo progressos!
 Quando voc foi embora h quatro anos, fiquei desolado. Acho que, inconscientemente, esperava que voc fosse morar comigo para sempre. E por minha culpa, por ter me portado como um jovem irresponsvel, voc partiu.
 Eu pensei que voc havia me beijado porque estava carente. Parti porque senti vergonha de mim por t-lo provocado em um momento to imprprio.
 Eu te beijei porque sonhava com isso havia tempos e porque minhas emoes estavam fora de controle. Fiquei arrependido. No do beijo, mas de no ter sido sincero com voc sobre meus sentimentos. Senti demais sua falta. A casa ficou vazia sem voc. Mergulhei no trabalho dias e noites sem fim. Negligenciei Stephen e Petra. Foi idia dela que eu me mudasse para Londres. Deu certo. Ou, ao menos pensei que tivesse dado. Eu a substitu pelo trabalho. Dediquei-me a ele por inteiro. Estava decidido a tornar minha empresa uma das melhores do pas no ramo. Passei a viver para meus negcios. Nem sequer notei que estava estressado. Gosto mais da vida aqui, Trish. Juro.
Trish deitou a cabea no peito de Adam e lhe deu um abrao espontneo.
 Fico contente que aprecie Bryher.
Olharam juntos para o cu de veludo escuro, salpicado de estrelas. Era maravilhoso estarem assim, ouvindo o silncio, respirando ar puro.
 Por mim, eu no deixaria Bryher nem sequer por um dia. Ainda no parti, mas j estou ansioso por voltar.
Para surpresa de Adam, Trish enlaou-o pelo pescoo e beijou-o.
 No poderia ter dito nada que me agradasse mais.
Adam afastou-a gentilmente.
 Agora  sua vez de falar. Por que fica tensa cada vez que menciono Londres? De que tem medo?
 Da maldio do povo das ilhas Scilly. Todos ns desconfiamos daqueles que afirmam que se apaixonaram por nosso estilo de vida.
 Estou interessado em voc  Adam retrucou.  O local onde vive  irrelevante.
 No . Eu me sentiria mais segura se voc tivesse se apaixonado por Bryher antes de se apaixonar por mim. Veja meu pai, por exemplo. Ele era de Londres. Quando se mudou para c, sentiu-se um prisioneiro. Vivia inventando motivos para ir ao continente. Um dia no voltou mais. Simplesmente telefonou para minha me e disse que queria o divrcio para se casar com outra e morar em Plymouth.
Adam tocou-lhe o rosto com imensa ternura.
 Ento voc passou a pensar que todos os homens que no nasceram nas ilhas faro o mesmo que seu pai.
 Sou realista. No espero nada de voc. Nossos estilos de vida so completamente diferentes. A adaptao  difcil de ambos os lados.
 Estou decidido a tentar. Sei que voc no deixaria a ilha. Ento serei eu a experimentar a vida longe de Londres. Quero provar que tenho condies de vencer a maldio.
Trish fechou os olhos e suspirou.
 Como posso confiar em suas palavras?
 Esperando e vigiando. Observe meu comportamento por um perodo.
Deus, at quando ele resistiria? Sua vontade era entregar-se de corpo e alma ao amor que o consumia. Mas seria um risco grande demais. Poderia pr tudo a perder. Assim, forou um bocejo.
 Estou exausto. Acho que vou dar um cochilo e depois trabalhar um pouco em meu computador. Espero no incomod-la com o barulho das teclas.
O que teria acontecido?, Trish no parava de perguntar a si mesma. Por que Adam fugira de seus beijos?
Deitou-se, contrariada. Admitia, contudo, que houvera um progresso no relacionamento. Afinal, Adam afirmara que tinha intenes de ficar.
Inquieta e acalorada, decidiu se levantar, aps virar o travesseiro pela centsima vez, e tomar um refresco gelado.
Viu seu corpo nu pelo reflexo do espelho  luz da lua. Nunca se sentira to feminina e voluptuosa. Os seios estavam maiores e mais empinados. Queria que Adam a visse, que a tocasse.
Zangada consigo mesma, vestiu seu velho robe e desceu a escada na ponta dos ps para no fazer barulho.
De repente, uma bebida gelada no lhe parecia o suficiente. Estava ansiosa. Precisava de algo que a distrasse.
Abriu a porta e respirou o ar fresco da noite. Correu para a praia e ao se aproximar do mar, tirou o robe.
A gua atingiu sua nudez como um muro de gelo. Deteve-se por um instante e arfou. Em seguida, riu e virou-se de costas para flutuar.
Um movimento nas sombras lhe chamou a ateno. Colocou-se de p e aguou os ouvidos.
 Trish! O que deu em voc?
 Adam!  Ela mergulhou de forma que apenas o rosto ficasse fora da gua.
 Por que fez isso?  ele insistiu.
 Porque... senti vontade de nadar.
 De madrugada?
 Ok.  Trish resolveu ser sincera.  Eu precisava esfriar a cabea e tambm o corpo! Esforcei-me por seduzi-lo, mas voc me rejeitou.
Adam umedeceu os lbios com a ponta da lngua.
 Voc no  do tipo que aceita ter um caso.
 No. Quis pr em prtica um plano.
 Um plano?
 Sim  ela admitiu e jogou os cabelos molhados para trs em um gesto de desafio.  Pensei que se voc estivesse interessado por mim apenas sexualmente...
 E dormssemos juntos, eu descobriria que no se tratava de uma obsesso, mas de um desejo frustrado que assim que fosse satisfeito, me deixaria livre para partir no primeiro barco.
Trish fez um movimento afirmativo com a cabea. Nos lbios de Adam, a idia lhe parecia absurda. Mas refletia fielmente seu plano.
 Vamos supor que eu gostasse tanto que quisesse mais. Voc se importaria?
Ela no respondeu. O amor estava escrito em seus olhos. Adam continuou:
 Ns no tomamos precaues antes. No podemos ser irresponsveis outra vez.
Trish sorriu. Mal podia esperar para contar a ele sobre o beb.
 Est tudo bem. No precisa se preocupar.
Adam respirou fundo.
 Ento venha c, minha sereia.
Trish no conseguiu se mover por um momento. Adam comeou a se aproximar. Devagar. Ela ficou de p e deixou que a lua iluminasse seus seios. Adam a devorou com os olhos.
 Alguns homens buscam experincias sensuais. Eu as recebo como um presente.
Sem pensar nas conseqncias de seu gesto, Trish enlaou-o pelo pescoo. Adam acariciou-a, fascinado pela maciez daquela pele que parecia lubrifcada pela gua como se fosse um leo perfumado.
Ela segurou-lhe o rosto, beijou os lbios salgados de mar e sugou-os possessivamente. Em seguida suas lnguas se encontraram e imitaram o ato do amor com apaixonada intensidade.
Seus corpos se moldaram. De repente, Adam fez um movimento com as pernas que a derrubou. Mas antes que afundasse, ele flutuou e a colocou por cima.
Trish no ousou respirar. A sensao de leveza, das peles nuas se roando proporcionava um prazer indescritvel.
 Adam!  ela sussurrou, fervendo apesar do frio da gua.
 O que foi, minha querida?
 No posso esperar mais!
Ele a colocou de p outra vez, mas apenas por um instante. Em seguida, carregou-a no colo e seguiu em direo  areia, sem parar de beij-la, nos lbios, no pescoo.
Foi deitada suavemente e coberta pelo corpo de Adam.
 Agora!  ela gemeu.
Por um instante, Trish pensou que a expresso de Adam fosse de dor. Ele fechou os olhos e apertou os lbios. Ela o tocou, ento, na virilha e sentiu uma mistura de prazer e triunfo quando aqueles lbios se entreabriram em um suspiro.
Ele era bonito. Assustadoramente charmoso. Movida por puro instinto, Trish deslizou seu corpo sobre o dele fazendo-lhe carcias com os cabelos. Para cima e para baixo. Para baixo e para cima.
 Pare, Trish  ele murmurou, rouco.  Sou um simples mortal. Estou em meu limite.
Ela murmurou junto aos lbios dele.
 Eu te amo. Faa amor comigo.
Ele girou o corpo de modo que as posies invertessem. Trish ergueu os braos e arqueou o quadril. Cada movimento, cada suspiro, cada olhar pareciam dizer... Agora.
A penetrao foi gentil, mas contnua. Trish agarrou-se a ele. Sua respirao estava suspensa. Amava-o. Adorava-o. Com a mente, com o corpo, com a alma. O mundo no mais existia. Apenas Adam.
Ondas de prazer a inundavam e ela subiu at suas cristas para depois mergulhar em uma profundidade maior do que o mais profundo dos mares.
 Querida  Adam murmurou e se deitou ao lado dela. Ela sorriu, incapaz de falar.
Algum tempo depois, ele acordou-a com um beijo, sugerindo que continuassem a dormir na cama.
Ela fez um movimento com a cabea, meio adormecida.
Foi maravilhoso ir para casa nos braos de Adam. Uma sensao indescritvel a invadiu quando Adam se deitou ao lado dela e cobriu-os com o lenol.

 
CAPTULO VII

Trish acordou pouco antes do nascer do sol. Espreguiou-se. Sentia-se satisfeita como nunca se sentira antes. Virou-se para olhar para Adam e no o encontrou.
Olhou ao redor e sentiu um arrepio de pnico ao v-lo sentado  janela com o olhar perdido no vazio.
Ele estava arrependido. Descobrira que no a queria mais. A suposio a fez empalidecer. Fora a nica culpada. Pressionara-o para que lhe fizesse amor. Queria test-lo. E o resultado do teste ficara pronto. No deveria estar to surpresa. Era fato conhecido e provado que homens que procuravam uma mulher apenas por sexo cansavam-se depressa de t-las a seu lado.
Com sua atitude, fizera-o descobrir a verdade. Seus lbios tremeram. Engoliu a decepo. Se estava tudo acabado, preferia que Adam lhe desse o golpe de misericrdia de uma vez.
 Se est tentando encontrar palavras para me dizer que quer ir embora, no se preocupe. Basta fazer as malas e eu entenderei.
Havia uma expresso de susto nos olhos de Adam, como se ele tivesse se esquecido de que ela estava ali.
 No quero ir embora.
O corao de Trish bateu mais rpido. Adam no era um homem fcil de ler. Por mais que tentasse, nunca conseguia adivinhar seus pensamentos.
Levantou-se ao perceber que ele estremecia de vez em quando. Sem dizer nada, cobriu-o com uma manta.
 Obrigado  ele agradeceu e lhe apertou a mo, mas no ergueu os olhos para ela. Comeou a brincar com seus dedos, como se precisasse ganhar tempo para encontrar as palavras certas de despedida.
Trish engoliu em seco para conter as lgrimas
 Como pude ser to tolo?  Adam falou consigo mesmo.
Com um movimento brusco, Trish retirou a mo. Nesse momento, Adam finalmente encarou-a. Antes no o tivesse feito. Havia dor em seus olhos.
A primeira reao de Trish foi a de abra-lo e consol-lo, mas seu amor-prprio no permitiu.
 No precisava ter sido to duro!
Trish voltou para a cama e se sentou, profundamente magoada.
 Voc no entendeu. Fui um cego. Tenho cada curva de seu corpo gravado em minha mente desde que a tive aquela noite. Voc est diferente. Voc est... grvida?
Ele ps-se a andar de um lado para outro. Trish sentiu o corao dilacerar como se tivesse sido ferido por uma espada. Adam no queria seu filho. O relacionamento entre eles, afinal, deveria ser de curta durao. Obsesses no davam lugar a bebs nem a mes. Apenas a amantes.
A resposta foi dada por um movimento afirmativo de cabea. A emoo a engolfava. Trish tocou a barriga e fechou os olhos. Seu beb, provavelmente, no conheceria o pai. Adam no seria irresponsvel a ponto de no reconhecer o filho ou de se negar a sustent-lo, mas no assumiria sua criao.
Ansiosa por ficar sozinha antes que desatasse a chorar, Trish comeou a tirar as roupas de Adam do armrio e jog-las sobre a cama.
 Pare com isso!  ele ordenou.
 No! Quero que v embora! Eu te amo e no posso suportar que me queira apenas para sexo!
Ela subiu na cama para pegar a mala sobre o armrio. Quando tentou descer, Adam estava a sua frente, tentando lhe arrancar a mala das mos.
Na luta, os dois acabaram no cho. Ele a cobriu com seu corpo e beijou-a quase com brutalidade. Ela tentou se libertar, mas Adam a segurou pelos pulsos at que parasse de se debater.
Quando o beijo terminou, ela ficou imvel. Sofria tanto que no conseguia respirar nem pensar. Ele beijou, ento, cada uma de suas lgrimas e soltou-a.
 Trish, quantas vezes preciso lhe dizer que sou louco por voc?
 Sexo!
 Sim! Mas  mais do que sexo que eu sinto. Eu gosto de voc.
 Voc nunca disse que me ama.
Ele calou-a com um beijo. Depois voltou a falar:
 Eu vim com a inteno de lhe fazer a corte da maneira certa. Queria ganhar sua amizade, sua confiana. Mas no consigo ficar a seu lado e no toc-la.  Ele segurou-lhe o queixo.  No imaginava que fazer sexo com a pessoa certa fosse algo to forte. Fiquei assustado com minhas prprias reaes quando descobri que voc estava carregando nosso filho.
 Assustado em que sentido?  Trish perguntou, ansiosa.
 Eu... no consigo explicar. Voc deve ter se sentido pssima  Adam murmurou e tornou a beij-la com imenso carinho.
 No  Trish respondeu.  Eu tenho amigos. Eles me ajudariam.
Adam franziu o cenho.
 Quer dizer que no me contaria se eu no descobrisse?
 Confesso que no sei  Trish respondeu com franqueza.  No suportaria se ficasse comigo apenas por dever. No quero isso. No me sinto segura ainda a seu respeito. Voc  muito fechado.
 Sou o que sou.
  importante para mim que aprenda a partilhar seus sentimentos.
 Fao o que posso. Sou diferente de voc. No consigo amar os outros incondicionalmente. Sua av lhe causa problemas e voc os releva. Eu no tenho sua pacincia. Admiro-a por no julgar as pessoas, por tentar enxergar sempre apenas o lado bom de todos. No poderia fazer o mesmo comigo? Quero que nosso relacionamento d certo. Agora h uma criana que depende de ns. Aceite-me como sou, Trish.
Trish sorriu. Adam estava se entregando a ela.
No por inteiro, mas como sabia se dar. E estava falando em termos de um futuro duradouro. Mas e o sacrifcio que isso representaria?
 Voc tem muito a perder comigo  Trish afirmou.
 Sim  Adam admitiu.  Estresse, presso alta, insnia...
Ela empurrou-o, de brincadeira.
 Estou falando srio. A renncia ser grande. Precisar esquecer as diverses, o glamour...
 Que poderiam me levar a um ataque cardaco. No, Trish.  apenas quando paramos de correr, que descobrimos como  agradvel caminhar. No pretendo fingir que ser fcil. Estou h pouco tempo na ilha. Mas sua magia j penetrou em minha pele. Quando fui embora, no experimentei nem sequer um minuto de sossego. Mas assim que avistei a ilha da janela do helicptero, uma sensao de paz e de prazer me invadiu.
 Quero muito acreditar em voc, Adam.
 E eu quero que d certo entre ns, Trish, desesperadamente.
A desconfiana estava estampada no rosto de Trish.
 E quanto a seus negcios?
 No sero um problema. Se for necessrio, poderei ir a Londres em poucas horas. No restante do tempo, cuidarei de tudo daqui mesmo.
 Onde?  Trish indagou.  A pousada  pequena. Costumo alugar todos os quartos na temporada.
 No se preocupe com isso. Eu arrumarei um espao. No so esses os problemas de que tenho medo.  de nossa diferena de idade.
 Isso no  problema. Nunca foi.
 De verdade?
 De verdade.
 Voc me ama?
 Total e apaixonadamente.
Os lbios se tocaram em um doce beijo.
 Isso  tudo que eu precisava saber, Trish. O resto so meros detalhes.  Adam segurou-lhe a mo e beijou-a. Depois fitou-a com malcia.  Vou tomar um banho, minha sereia. Venha comigo. Quero lhe mostrar como estou feliz.
Uma nova esperana brotou no corao de Trish. O futuro parecia lhe sorrir.
Vestiu-se, sonhadora, depois de ser beijada e banhada por Adam. No havia mais motivos para esconder sobre o beb. Sairia e compraria roupas para ele e para ela. E contaria a novidade a sua av, a Lucy, e a todo mundo!
Alguns minutos depois, Adam surgiu  porta de seu quarto, j vestido com um jeans e uma camiseta plo.
 Estou faminto. Seria capaz de comer o maior caf da manh que j foi preparado. A propsito, quero dois ovos, duas salsichas...
Trish atirou a escova de cabelos em Adam. Estavam felizes, sorridentes.
 Que tal ir pegando os ingredientes enquanto termino de me arrumar? Estarei com voc em um minuto.
O modo como ele acatou suas ordens e fez uma mesura prolongou a brincadeira. Trish balanou a cabea.
 Acho que prefiro seu papel de Valentino Capelli!
Ento Valentino Capelli cuidar de sua mulher.
 Apenas coloque a gua no fogo para o ch, ok?
Estavam se dando muito bem. Discutiam s vezes, mas tambm encontravam prazer em muitas coisas que faziam juntos. A impresso que dava era que os ltimos quatro anos no haviam existido.
 Adoro seu jeito de ser  Adam murmurou e se debruou sobre a mesa para beij-la.
 Ei! Espere at eu terminar de mastigar e engolir!  Trish protestou.
 Algumas garotas no sabem o que  romance!  Adam suspirou.
Uma expresso ansiosa surgiu inesperadamente no rosto de Trish.
 No v amanh para Londres!
 No quero ir, mas preciso  Adam respondeu e hesitou.  H um trabalho urgente a ser entregue. No se importa se eu passar o dia em meu quarto, no ?
 Claro que me importo!  Trish declarou e deu uma piscada.
Conforme prometera, Adam passou o dia inteiro diante do computador. Trish viu-o apenas nos momentos de lhe servir caf e sanduches.
Fizeram amor aquela noite e dormiram nos braos um do outro. Pela manh, quando se despediram no embarcadouro, Trish sentiu um n na garganta.
 Voltarei depois de amanh. Ligarei para voc pela manh e  noite.  Ele lhe deu um beijinho.
 Cuidado para no tropear no caminho. Seus olhos esto nublados!
Ela riu e empurrou-o em direo ao barco. E ficou acenando at sua viso alcan-lo.
A solido atingiu-a com fora. Onde antes houvera riso, agora havia silncio. Foi ao quarto dele e abraou um suter que encontrou sobre a cadeira.
Nada poderia separ-los. Aquele era o amor de sua vida. Sem Adam, nada mais tinha significado.
Desceu e tentou trabalhar, mas no conseguiu se concentrar no que fazia. Um impulso, ento, a fez ligar para Petra. Talvez tivesse sorte e a amiga estivesse de folga. Ela trabalhava como enfermeira em um hospital e seus dias de descanso variavam.
 Dei lembranas suas ao sr. Mack Rowe  Trish caoou.
 Muito bem  Petra respondeu.
 Sua bandida! Sabia que era Adam!
 Quem sou eu para impedir um adorvel romance?
 Mas...
 Ora, Trish. Nunca foi segredo para mim que Adam te amava.
 O que a faz pensar isso?  Trish indagou, com o corao acelerado.  Vocs conversaram a meu respeito? O que ele disse?
 At mesmo uma criana de dois anos perceberia. Ele  louco por voc desde que a viu em nossa porta. Eu sabia, mame sabia, Stephen sabia! Por que acha que ele infernizava sua vida?
 Mas Adam nunca disse nada!
 Claro que no. Adam sempre se distancia das emoes. Foge de tudo que possa lhe causar sofrimento. Ele no foi ao enterro de minha me, lembra-se?
Algo que Adam comentara um dia, retornou a sua memria.
 Petra, por que ele se casou com Christine? Ele me confessou que no a amava, mas que precisava de algum. Voc sabe algo a respeito?
 Problemas com a famlia, eu acho. No sei exatamente. Na poca, eu s tinha trs anos de idade. Ele nunca contou nada sobre sua infncia e adolescncia. Fique tranqila. Ele te ama.
 Espero que voc esteja certa!  Trish exclamou, aliviada.
 Claro que estou. E sua av, como vai?
 Bem. Teve alta e est se restabelecendo em casa de uma amiga em St. Mary para ficar perto do hospital, em caso de necessidade.
Petra e ela conversaram por mais alguns minutos. Quando Trish desligou, abraou-se e rodopiou. Adam a amava! Agora no tinha mais dvidas.
Dois dias depois, foi ao embarcadouro esper-lo. Ele foi o primeiro a descer.
Permaneceram abraados por tanto tempo que ao se separarem os demais passageiros j haviam desaparecido de vista, assim como o barco.
 Senti sua falta  ela murmurou.
 E eu senti a sua. Como vocs esto?
 Ns estamos bem  ela respondeu, enternecida.
Ele beijou-a e logo comeou a reclamar sobre a poluio e sobre o barulho de Londres.
 No consegui dormir e... De que voc est rindo?
 De voc! Est falando como um habitante da ilha!
Adam apertou as tmporas.
  bom estar de volta. Estou com uma dor de cabea terrvel. Stephen me deu um comprimido, mas no adiantou.
 Eu lhe darei algo assim que chegarmos em casa. A caminhada e o ar puro tambm ajudaro. Como vai seu filho?
 Ns brigamos. Eu estava muito irritado. O escritrio estava um caos. Louise no apareceu por l nesses dois dias. Deixou um recado sobre querer vender sua parte na sociedade.
 Telefone para Stephen e pea desculpa  Trish sugeriu.
 Tenho outras prioridades. Preciso organizar-me de forma a poder trabalhar aqui e manter contato com o resto do mundo como se estivesse em Londres. Mandei despachar todo meu equipamento para c e tambm alguns mveis de escritrio.
Trish acariciou-lhe a face.
 No foi precipitado? Tem certeza de que quer se mudar para c?
 Absoluta.
Trish lhe deu um remdio homeoptico para a dor de cabea.
 Como est Lucy?  ele quis saber, assim que levou a bagagem para o quarto.
 Com saudade de suas aulas.
Adam mudou rapidamente de assunto como se temesse o cime de Trish. Ela sorriu.
 Que tal darmos um passeio? Depois que as pessoas nos viram abraados no embarcadouro, devem estar falando a nosso respeito. Que acha de ser apresentado ao povo daqui?
O passeio foi agradvel. Trish surpreendeu-se com a recepo que Adam teve por parte de Joe Slater e de sua esposa. Adam e eles se trataram como se fossem velhos amigos. Joe ofereceu-lhe, inclusive, um espao em sua fazenda para a instalao do escritrio.
Enquanto os homens conversavam, Dot falou sobre a dificuldade que estavam encontrando para vender a propriedade.
 Joe e eu no temos mais idade para viver aqui. Nosso bangal est pronto em St. Mary. No nos mudamos ainda por causa de Ned. Ele sempre foi um empregado fiel e competente. Se formos embora, ele no ter onde se empregar.
Trish apertou a mo de Dot.
 Dar tudo certo. Sua fazenda  linda. Eu a compraria de olhos fechados se ganhasse na loteria.
 Tarde demais!  Adam exclamou.  Acabei de compr-la.
 Voc?  Trish no cabia em si de perplexidade.  Adam, voc enlouqueceu? Nunca foi um fazendeiro!
 No, mas Ned entende do assunto. Eu continuarei fazendo o que gosto e ele e voc tambm. No  uma soluo brilhante?
 Oh, Adam!  Trish abraou-o, emocionada.   maravilhoso. Mal posso esperar para contar a Lucy!
 E voc? O que acha da idia de me ter como vizinho?
Trish sorriu. Adam no podia imaginar o que aquele passo significava para ela.
 Joe, precisamos brindar!  disse Dot.  Pegue aquele vinho que ns mesmos fizemos enquanto eu apanho os copos.  Ela se virou para Adam.  Voc no tem um irmo por acaso?
O sorriso desapareceu dos lbios de Adam instantaneamente. Trish notou e franziu o cenho. Mas em questo de segundos, Adam respondeu com naturalidade.
 No. Por qu?
 Porque Lucy  solteira e poderia ser muito feliz se conhecesse algum como voc.
 Um dia ela conhecer algum que a merea.
 Ela o considera muito.
 Obrigado.
Trish no entendia o porqu de tanto desconforto. Mas como tinha certeza de que no havia nada entre Adam e Lucy, procurou afastar o pensamento.
Depois que se despediram de Joe e de Dot, ela contou a Adam histrias de naufrgios e contrabandos. Subiram uma colina e ficaram um longo tempo contemplando a vista do mar, com suas guas claras como cristal, sob o cu azul povoado de aves brancas.
 Agora eu o levarei  igreja para apresent-lo a meu av. Vov e eu o visitamos com freqncia.
Adam hesitou.
 No. Eu... Sinto muito, mas preciso voltar e fazer algumas ligaes.
 Assim de repente?  ela estranhou. Ele deu um sorriso que no a convenceu.
 Acabei de fazer o maior negcio de minha vida! Preciso colocar as engrenagens em movimento.
 No  por esse motivo que declinou de meu convite. Trata-se de seu irmo, eu aposto.
 Eu disse que tive um irmo, por acaso?  Adam resmungou.
 No, mas eu adivinhei.
 No quero falar sobre esse assunto.
 Voc  quem sabe.
O episdio os silenciou pelo resto do passeio.
Junho chegou. As ilhas cobriram-se de flores silvestres. O vero trazia perfume ao ar e os barcos traziam turistas. A pousada de Trish estava com as reservas garantidas por toda temporada. Mas, apesar do trabalho intenso, Adam e ela passavam juntos cada minuto livre, sentindo-se felizes como Trish nunca imaginara fosse possvel.
A av retornou  ilha, completamente recuperada. Trish lhe contou sobre o beb. Queria que ela fosse a primeira a saber.
Sem dizer nada, a av tirou dois pares de sapatinhos e dois casaquinhos de sua cesta de tric.
 Voc sabia?  Trish perguntou, surpresa.
 Antes que voc, provavelmente  a av respondeu.  Por que ainda no esto morando juntos?
Constrangida com a objetividade da av, Trish encolheu os ombros.
 No tenho certeza sobre ele.
 Faa-o ter certeza  ela sugeriu e Trish seguiu o conselho.
Mudou-se para a casa de Adam, mas passava os dias na pousada, cuidando de seus hspedes. Amavam-se todas as noites. De um modo suave e doce s vezes, outras com paixo e volpia. Seu amor por Adam crescia cada dia.
Todos gostavam dele. Especialmente Lucy.
Uma tarde, depois de um encontro com os amigos no caf, Trish pensou na incrvel e rpida adaptao de Adam.
Ned, o irmo de Lucy, saa com ele com freqncia no velho barco de Joe e lhe ensinava sobre as passagens seguras entre as ilhas e sobre as condies das mars.
Ele comprou pilhas de livros sobre navegao e sobre pssaros. Trabalhavam juntos na fazenda de vez em quando ou passavam horas agradveis decorando a nova casa. Parecia que tinham tudo que desejavam na vida.
Lucy adorava as aulas. Se Adam no fosse to dedicado, se no fizessem amor com tanto entusiasmo, ela sentiria cime.
O bolo de chocolate estava saindo do forno. Cortou um pedao e decidiu lev-lo a Adam em seu escritrio com um copo de limonada. Estava ajeitando a bandeja para abrir a porta quando ouviu um rudo estranho. Parecia algum respirando fundo. Prestou ateno. Adam. Em seguida, Lucy.
Depositou a bandeja sobre o aparador. Estava branca como uma folha de papel. No podia ser! Adam no lhe dera nenhum motivo para suspeitar de sua fidelidade.
Receosa do que poderia ver, tornou a apanhar a bandeja, disposta a se afastar dali. O copo tombou e bateu no prato.
Um instante depois, Adam abriu a porta.

 
CAPTULO VIII

 Oi, querida! Ouvi um barulho. Deixou cair algo? Posso ajudar?  disse Adam, alegre.
Trish tentou encontrar em seu rosto sinais de culpa. Ele estava corado, mas seus olhos pareciam sinceros e inocentes.
 Um copo apenas. No pretendia incomod-los.
 Bolo de chocolate nunca incomoda!  Adam caoou ao mesmo tempo que tirava a bandeja das mos de Trish e a levava para o escritrio.  Olhe s o que Trish nos trouxe, Lucy!
Trish sentiu-se envergonhada por seus maus pensamentos. Mas bastou seu olhar recair sobre Lucy para o fantasma do cime voltar a assombr-la. Lucy tambm estava corada e parecia assustada como um coelho. Uma onda de nusea a fez cambalear.
 O que houve, querida?
Trish levou uma das mos  boca e correu. Adam seguiu-a. Assim que ela saiu do banheiro, abraou-a.
 Voc est quente. Vou chamar um mdico.
 No! Mdicos so para emergncias!  ela protestou.  Se  uma simples febre, tenho um remdio timo.
 Voc precisa de algum que entenda...
 No tomarei nenhuma droga! No subestime meus conhecimentos e meus remdios!  Trish explodiu.  Sua dor de cabea no passou com o medicamento que lhe dei? No quero sua medicina, especialmente agora. Est querendo matar seu filho?
 Trish! No diga isso!  Adam protestou, chocado.  Sinto muito.  claro que acredito em seus remdios. Apenas fiquei preocupado. Voc est muito plida. No quero que nada de mal lhe acontea e ao beb.
 Deixe-me em paz! Quero dormir.
Ele beijou-a no rosto e levou-a para o quarto. Quando saiu, fechou a porta.
Trish no sabia o que pensar. Talvez estivesse imaginando coisas. Adam desistira de seu estilo de vida por causa dela. E Lucy era uma boa moa. Deveria ter ficado constrangida porque no se sentia  vontade a ss com o amante de sua patroa. Ela corava por qualquer motivo. E eles poderiam estar respirando fundo por terem feito um esforo. Talvez tivessem empurrado algum mvel, por exemplo.
Por mais que tentasse se convencer do contrrio, os temores aumentavam cada minuto. O enjo tornou-se insuportvel. Precisava tomar algo que a aliviasse. Precisava se acalmar para no prejudicar seu beb.
Estava se dirigindo  cozinha quando tornou a ouvi-los. Estavam rindo baixinho. Lucy arfou. Abriu a porta devagar. O que viu a deixou paralisada.
Adam. De costas para ela. Com Lucy em seus braos. No dava para lhe ver o rosto, mas os sapatos e a voz eram inconfundveis.
 Oh, Adam!  ela murmurou.   maravilhoso!
Em estado de choque, Trish fechou a porta e se afastou. Cega pelas lgrimas, tropeou em uma cadeira.
 Trish, querida!  Adam estava a seu lado em questo de segundos.  Voc melhorou?
Ela negou com um movimento de cabea.
 Ajude-me a ir para a cama.
 Esteve chorando?
 No. No faa perguntas. Apenas me coloque na cama.
Ele atendeu-a.
 Est sentindo alguma dor?
 Sim!  Seu corao doa.
 Deixe-me chamar o mdico, Trish. Pode haver algo de errado com o beb.
Adam tirou o fone do gancho e estava prestes a discar quando Trish gritou para que no insistisse.
 Deus! O que deu em voc? Est com febre! Por que se recusa a deixar que eu cuide de sua sade?
Ela sabia o que estava acontecendo. Seu corao estava partido. Escondeu o rosto no travesseiro e chorou.
 Saia daqui.
 No. No a deixarei sozinha.
Adam a segurou junto ao peito, acariciou-lhe os cabelos e beijou-a infinitas vezes.
 Fique calma. Preciso tomar uma providncia, mas voltarei em seguida.
 V. No precisa voltar  Trish declarou, soluando. Por mais que Adam se mostrasse terno e carinhoso, no conseguia evitar o pensamento de que ele estava tendo um caso com Lucy.
O enjo passou aps dois dias, mas a febre e o desnimo persistiam. No tinha foras para se levantar.
Adam a visitava com freqncia e tentava conversar, mas ela o repelia. Quando ele sugeriu avisar a av sobre seu estado, ela respondeu aos gritos.
 No quero preocupar minha av. Diga que estou resfriada e que a probo de vir aqui porque no quero lhe transmitir nenhum vrus.
Adam fez um sinal afirmativo com a cabea. Estava abatido. Apresentava sombras escuras sob os olhos. Uma conseqncia,  claro, de seu relacionamento com duas mulheres ao mesmo tempo, Trish pensou.
 No pode continuar assim, querida  Adam murmurou quando ela se ps a chorar outra vez.  Precisa de ajuda. H algum na sala que deseja v-la.
 Quem?  Trish estranhou.
 Daqui um minuto voc ir saber. Quando retornou, Adam trazia um jovem em sua companhia.
 Stephen!
 Oi. Sinto que no esteja bem. Vim visitar meu pai. Tirei uns dias de frias.  Stephen se sentou na beirada da cama e depositou uma maleta no cho.  O que voc tomou para essa febre?
Trish franziu o cenho.
 No se trata de uma visita casual. No finja. Voc o chamou, no chamou, Adam?
 Sim, no sabia mais o que fazer. Deixe-o ajud-la.
 Como se atreveu? Ele ainda no est formado. E voc sabe que sou adepta da medicina natural.
 No sei nada sobre seus remdios. Voc no quis que eu chamasse o mdico local nem que avisasse sua av. O que esperava que eu fizesse? Que ficasse de braos cruzados, vendo-a definhar?
 O enjo passou.
 Mas a febre persiste!
Adam estava zangado com ela. Era um absurdo!
 Voc no deveria ter incomodado seu filho, obrigando-o a vir de to longe.
 Eu teria chamado a rainha da Inglaterra se acreditasse que ela poderia ajud-la  Adam retrucou.
 Voc no  meu dono! No manda em mim! No quero nada com voc.
Ela se deteve ao notar a palidez de Adam. Stephen tentou consol-lo.
 Trish est doente. No sabe o que diz.
 Sim, eu sei  Trish gritou.  No quero mais nada com voc, Adam.
Ele esperou para responder, at que recuperasse o controle.
 Por qu?
 Adivinhe!
 Sinto muito, Stephen  Adam murmurou.  Chamei-o  toa. Obrigado por ter vindo. Sou-lhe muito grato.
 Foram poucas as vezes que voc disse que precisava de mim.  bom saber que posso ser til de vez em quando.
Incapaz de continuar suportando aquela cena, Trish se levantou, apanhou uma roupa e se dirigiu ao banheiro. Enquanto se vestia, ouviu os homens sarem do quarto. Mirou-se ao espelho e se assustou com sua aparncia. Cogitou em disfarar a palidez e as olheiras com um toque de maquilagem, mas no teve vontade suficiente para isso. Afinal, de que adiantaria?
 Quero falar com voc, Adam  ela disse com frieza ao entrar na cozinha.
 A necessidade  mtua. Vamos dar uma volta.
Caminharam at a praia em silncio. De repente, Trish virou-se para ele e fitou-o como se quisesse fulmin-lo.
 Nunca mais use minha casa para suas conquistas baratas!
 A que conquistas se refere?
 No adianta fingir espanto. Eu os vi com meus prprios olhos!
 De que voc est falando, Trish?
 Eu os vi!
 Viu o qu? Ou quem?
Trish hesitou. Adam parecia sincero.
 Eu o vi abraado com Lucy.
 Com Lucy? No seja ridcula! Se est precisando de uma desculpa para acabar nosso relacionamento, arrume outra.
 Eu no preciso de nenhuma desculpa. Voc j ps um fim!
 Estou falando srio, Trish. Se no me quer mais, tenha a decncia de assumir-se. No invente mentiras nem me acuse de atos imorais.
 Eu os peguei em flagrante! Vocs estavam juntos e ela lhe dizia o quanto era maravilhoso!
 No confia em mim! Nunca confiou!
De repente, Adam a segurou pelo brao e puxou-a.
 Aonde pretende me levar?  Trish tentou se desvencilhar.
 At Lucy. Ns j deveramos ter lhe contado.
 No! No! No faa isso comigo! Basta de humilhaes!
 Por favor, Trish, cale-se!
Adam nunca se sentira to zangado. Arrastou Trish at sua casa. Ou melhor, carregou-a porque ela ainda estava fraca em conseqncia da febre. Acomodou-a em uma cadeira e chamou Lucy.
A jovem veio ao encontro deles com os olhos arregalados de susto. Stephen, curioso com o barulho, se reuniu ao grupo.
 Quero que diga a Trish o que ns dois estivemos fazendo nas ultimas semanas.
Ela sorriu. Adam se aproximou dela e apoiou a mo sobre seu diafragma. Stephen chamou-o, perplexo. Adam fez sinal para que o filho se calasse.
Lucy respirou fundo e disse de uma s vez.
 Meu nome  Lucy Ward.  Ela tornou a respirar.  Moro com meu irmo em Bryher.
Adam beijou Lucy em ambas as faces e elogiou-a. Quando se virou para Trish para observar sua reao, viu-a chorando.
 Vocs se amam...
 No acredito no que estou ouvindo  Adam murmurou.  Conte a ela, Lucy.
Lucy respirou fundo.
 Adam me ensinou a respirar para depois falar. Devagar. Decidimos manter segredo para lhe fazer uma surpresa. Eu j estou conseguindo falar sem gaguejar. Estive em St. Mary e conversei com estranhos. E no gaguejei nenhuma vez!
 Muito bem, Lucy  Adam interrompeu-a.  No acha que deve um pedido de desculpa a Lucy, Trish?
 Eu os vi! Estavam ofegantes.
 Eu estava ensinando a ela como respirar. No poderia nos ter visto fazendo outra coisa. Nunca aconteceu outra coisa. Tudo que fiz foi colocar minha mo sobre o diafragma de Lucy, como acabei de lhe mostrar, para que ela sentisse o pulmo encher de ar e ser esvaziado. Como fizeram comigo quando era criana. Acredite em mim, Trish. Por Lucy. Ela gosta de voc e de trabalhar para voc. Coloque em sua cabea de uma vez por todas: Lucy e eu no somos amantes, nunca fomos nem nunca seremos.
Trish suspirou.
 Aconteceu outra vez. Eu tirei mais uma concluso precipitada. Perdoem-me. Voc deve estar nas nuvens, Lucy. Obrigada, Adam.
As duas mulheres se abraaram e Adam sentiu uma onda de emoo invadi-lo. Trish olhou para ele. No suportou. Afastou-se em silncio.
Ela o alcanou no alto de um dos rochedos mais perigosos da ilha. O mar estava bravo. As ondas estavam assustadoramente altas.
 Acho que no h mais nada a ser dito  Adam murmurou.
 Eu j pedi desculpa!  Trish exclamou, sem flego.  Est fazendo isso para me castigar?
 Voc no confia em mim. Por mais que eu lhe d provas de minha devoo, sempre pensa o pior de mim. O que podemos esperar de um futuro juntos?
 Como posso confiar em voc, Adam, se no confia em mim?  Trish declarou com um fio de voz.  Ns fazemos amor, rimos, trabalhamos juntos e temos vivido como marido e mulher, mas voc nunca disse que me ama. Com seu medo de sofrer, fecha-se em si mesmo e coloca uma barreira entre ns. No percebe que com essa atitude, sou eu quem estou sofrendo? Eu te amo. Sempre te amei e sempre te amarei. Mas sou orgulhosa demais para me contentar com metade de voc. Ou ns nos entregamos por inteiro um ao outro, ou nos separamos.
A emoo foi to forte que Trish vacilou. Em duas passadas, Adam estava a sua frente, amparando-a. Seus olhos estavam midos. Ele engoliu em seco.
Como se uma fora poderosa os impulsionasse, deslizaram para o cho, abraados.
 Eu te amo  Adam murmurou, pronto para se lanar ao desconhecido, mas em paz em sua rendio.  Eu te amo mais do que voc pode imaginar. Mais do que eu me julgaria capaz. Voc est certa. Tudo o que disse  verdade.
Ele hesitou. Ela segurou-lhe o rosto e beijou-o. Nesse momento, Adam deixou-se levar pelo fluxo do amor com toda sua doura.
 Trish, minha querida, meu amor. Pensei que poderia me trancar ao passado sem afetar outras pessoas. Errei. Agora estou pronto para dividir meu problema com voc, se quiser me ouvir.
 Eu s quero ajud-lo, Adam.
 Tive um irmo gmeo. Ele se chamava Sam. Ns no conhecemos nosso pai. Nossa me no suportou a idia de nos criar sozinha, jovem como era. Um dia nos abandonou na porta de um orfanato em uma cidade desconhecida.  Uma expresso de dor toldou os olhos de Adam e Trish os beijou.  Tnhamos seis anos, mas eu me lembro como se fosse ontem. Nunca mais a vimos.
 Ansiosa por dar algum conforto a Adam, Trish beijou-o com imensa ternura.
 Sam e eu nos fechamos para os outros, incapazes de superar a rejeio  Adam continuou.
 Eu era a fora dele e ele era a minha. Faltava pouco para completarmos dezesseis anos e deixarmos o orfanato. Sam teve uma forte dor de cabea e febre. O casal que dirigia o orfanato disse que era gripe. Deram-lhe um remdio e o mandaram para a cama. Eu passei a noite acordado ao lado dele. Sabia que era algo mais srio. Fui ao quarto deles e acordei-os. Expulsaram-me aos berros. Insisti e apanhei. Quando voltei para junto de Sam, ele estava delirando.
 Meu Deus! O que voc fez?
 Eu o carreguei at o carro do diretor do orfanato e levei-o ao hospital. No sei como. Era a primeira vez que conduzia um veculo. Mas cheguei tarde. Ele morreu em meus braos no momento que a enfermeira de planto chamou o mdico. Parte de mim morreu naquele instante.
Adam trocou as palavras pelos soluos. Trish o fez apoiar a cabea em seus seios. A barreira finalmente havia cado.
Algum tempo depois, ele se acalmou, sua respirao voltou ao normal. Ela lhe acariciou os cabelos, o pescoo, os ombros.
 Sinto muito, meu querido.
 Eu tambm. Sinto falta de Sam at hoje. Quando ele morreu, no me aproximei de mais ningum. Nem mesmo Christine, minha psicoterapeuta, conseguia me atingir.  Trish ficou surpresa com a informao. Nunca lhe passara pela cabea esse tipo de relacionamento.  Talvez por isso, ela tenha resolvido se abrir comigo. Contou-me sobre seu divrcio e sobre sua dificuldade em criar a filha sozinha, sendo obrigada a trabalhar em perodo integral para sustent-la. Pouco a pouco, nos tornamos amigos.
 E ento se casaram.
 Sim. Eu estava com dezoito anos. Ns gostvamos muito um do outro. Tenho certeza de que Christine soube que voc era a mulher ideal para mim. A nica a quem eu poderia amar de verdade.  Adam fez uma pausa.  Trish, eu gostaria de comear de novo com voc.
Trish fitou-o.
 Quer que eu mande fazer um vestido verde igual ao que estava usando quando nos conhecemos?
Ele riu. Ela sentiu que um peso era retirado de seus ombros. Abraaram-se e beijaram-se.
 Esquea o vestido verde. Quero v-la com um vestido branco. De noiva. O mais depressa que for possvel. Quero uma esposa. A me de meu filho.
 Eu sempre te amei  Trish murmurou.
 Case-se comigo.  Ela amava-o tanto e esperava tanto por esse pedido que um n se formou em sua garganta.  Diga sim  Adam implorou.
 Sim  ela moveu os lbios em silncio.
Felizes como nunca, fitaram-se e riram.
 Eu te adoro, Trish.
 Ainda bem  ela respondeu, maliciosa.  Seu amor passar por um teste difcil.
 Qual?  Adam estranhou.
 Acho que posso adivinhar qual ser o presente de casamento de minha av.
 Aquele cachecol?  Adam sugeriu.
 Sim, e voc ter de us-lo!

Estavam todos no embarcadouro. Stephen e Lucy, Trish e Adam, o pequeno Sam e Julia.
Sam olhava para o pai  espera de uma resposta para a pergunta que acabara de fazer.
Adam falou com Stephen antes de se abaixar e se dirigir ao filho:
 Se voc quer entrar na igreja com sua irm no casamento de Stephen, ele ficar muito contente. Ele no o convidou antes porque pensou que no lhe agradaria vestir-se como manda a ocasio. Voc sempre se recusa a vestir qualquer roupa que no seja short e camiseta.
 Mas eu preciso entrar para tomar conta de Julia!
 Claro que sim.  Adam deu um abrao em Sam e virou-se para o filho mais velho.  Tudo bem, ento?
 Tudo bem  Stephen concordou.
Trish colocou o filho no barco e se despediu com um beijo.
 D tchau para seu irmo, Julia! Hoje  seu primeiro dia de aula. Tenha um bom dia, querido!
Todos acenaram. Trish estava emocionada. O tempo havia passado sem que se desse conta.
 Vamos voltar e continuar a enderear os convites, Lucy?  Stephen props.
Trish e Adam seguiram para casa de mos dadas com a filha. Stephen e Lucy ficaram na pequena cabana onde passariam a morar aps o casamento. Lucy continuava a ser o brao direito de Trish na pousada. Stephen estava pesquisando plantas medicinais na ilha para sua defesa de tese.
Trish sorriu para o marido.
 Eu te amo.
 Quero uma prova.  Adam lhe deu uma piscada.  Esta noite, iremos para a praia e nadaremos como daquela vez!











SARA WOOD adorou quando recebeu o convite para escrever uma histria sobre grvidas. Ela acha a maternidade um dom divino, e ver os filhos crescerem, se tornarem independentes e gerarem suas novas famlias  maravilhoso.






 
DICAS


UMA NOVA PESSOA EM CASA
Em pouco tempo voc fica conhecendo o temperamento de seu filho. Ele talvez seja fcil de lidar, ou, ao contrrio, choro e difcil acalmar, ou ento desconfiado de tudo o que  novo. Essas caractersticas tendem a persistir na criana  medida que ela cresce, mas a personalidade dela  moldada tambm por tudo o que lhe acontece e pela forma como as outras pessoas se comportam em relao a ela, especialmente os pais. Ajude seu filho a se sentir confiante e a ser socivel, mostrando-lhe, desde o incio, como ele  especial para voc. Tratando-o como um indivduo de vontade e opinio prprias, voc estar contribuindo para a autoconfiana dele. H momentos na infncia em que o entusiasmo da criana  maior do que sua capacidade, mas  preciso todo o tato ao ajud-la, para que no sinta que esto fazendo tudo por ela. Mas se voc se puser no lugar dela e puder ver por que s vezes a vida  frustante para ela, os anos pr-escolares se tornam um tempo de. divertimento e de grandes descobertas para ambos.

O ENTENDIMENTO MTUO
O entendimento mtuo entre voc e seu filho durante os anos pr-escolares  um processo de ajuste para ambos. Ele precisa aprender os limites aceitveis de comportamento, e voc talvez tenha de modificar seu estilo natural, que nem sempre ser tolerante, coerente e justo. Seu filho precisa que voc lhe mostre, e no apenas lhe diga, como se comportar. Bondade, polidez e outras qualidades sociais ele vai aprender imitando voc, isto , copiando a maneira como voc mesma se comporta em relao a ele.

COMO LIDAR COM SEU FILHO
E quase certo que seu filho vai reagir bem e fazer de boa vontade o que lhe pedir, se voc for firme e carinhosa ao mesmo tempo. No  fcil obter esse equilbrio.
- Seja coerente no que voc diz e faz. Se a criana apanha quando desobedece, ela faz o mesmo com outras crianas, quando se zanga, ainda que a me a proba.
- "Faa" funciona melhor do que "no faa". Diga:
"Pendure seu casaco para no pisarem nele", e no: "No jogue o casaco no cho".
- Diga "por favor" e "obrigada" quando pedir que ele faa algo.
- Combine com seu marido o que  permitido e no se contradigam.
- Tente convencer sem coagir. Se ele estiver entretido no meio de uma atividade, diga: "Vamos s terminar esse jogo e depois voc vai para a cama", e no: "Arrume os brinquedos e v dormir".
- No seja rgida. Procure ouvir como se dirige a seu filho. Ser que no est sempre dando ordens: "Pare j com isso", "No mexa"?
- Se voc cometeu uma injustia, admita e pea desculpas.
- No afirme sua autoridade sem necessidade. Evite um confronto de vontades.
- Explique sempre a seu filho por que no deve fazer algo, bem como o que ele no pode fazer, mesmo que ainda seja muito novo para entender.

REGRAS DE SEGURANA
At que seu filho tenha dois anos e meio, voc no pode esperar que ele entenda os motivos para no fazer certas coisas, ou se lembre do que  proibido. Cabe a voc o cuidado para que a curiosidade da criana no a ponha em risco e as regras mais importantes sejam cumpridas.
Por exemplo, "No v ao quintal sozinho"  uma regra abstrata: seu filho no a compreende nem vai se lembrar dela quando estiver entretido, brincando. Fique de olho nele e coloque uma tranca na porta, para ter certeza de que ele no vai sair.
Organize a casa para minimizar quaisquer perigos e para no ter de ficar ralhando. De outro modo, a curiosidade de seu filho vai gerar conflito entre ambos. Feche bem as gavetas e os armrios, no deixe fios eltricos pendurados, ponha protetores nas tomadas e coloque o aparelho de som fora do alcance da criana.
s vezes, tir-la de um ambiente  o nico jeito: uma portinhola na porta da cozinha vai mant-la segura enquanto voc faz a comida.

AMAR E MIMAR
Talvez voc considere excessivo o afeto normal que d a seu filho. No se preocupe. Ele precisa de seu amor e de muita ateno. Voc s o mima sendo tolerante demais com o mau comportamento dele. No ceda s manhas, choros e birras dele para conseguir o que deseja. Isso ser ruim para seu filho nas relaes com amigos e adultos. Se voc trabalha fora, talvez pense em compensar sua ausncia dando muitos brinquedos  criana. Brinquedos no substituem a me, e voc pode criar uma falsa noo de seus recursos. Em vez disso, estando com seu filho, d-lhe seu tempo, seu amor e muito afeto.

